O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO III 1494

7. Como ocorreu que as vossas lembranças da infância pareciam vos retornar de preferência? – R. Porque o começo está mais próximo do fim do que o meio da vida. – P. Como o entendeis? – R. Quer dizer que os agonizantes se lembram e vêem, como numa miragem de consolação, os jovens e puros anos.

Provavelmente, é por um motivo semelhante que os velhos, à medida que se aproximam do fim da vida, algumas vezes, têm uma lembrança tão precisa dos menores detalhes de seus primeiros anos.

8. Por que, falando de vosso corpo, faláveis sempre na terceira pessoa? – R. Porque eu era vidente, e vos disse, e sentia nitidamente as diferenças que existem entre o físico e o moral; essas diferenças, unidas entre si pelo fluido da vida, tornam-se bem acentuadas aos olhos dos moribundos clarividentes.

Aí está uma particularidade singular que a morte desse senhor apresentou. Nos seus últimos momentos, ele dizia sempre: "Ele tem sede, é necessário dar-lhe de beber; ele tem frio, é preciso aquecê-lo; ele sofre em tal lugar, etc." E quando se lhe dizia: "Mas sois vós que tendes sede," respondia: " Não, é ele." Aqui se desenham perfeitamente as duas existências; o eu pensante está no Espírito e não no corpo; o Espírito, já em parte desligado, considerava o seu corpo como uma outra individualidade, que não era mais ele propriamente falando; era, pois, ao seu corpo que era necessário dar de beber e não a ele Espírito. Este fenômeno se nota bastante entre certos sonâmbulos.

9. O que dissestes do vosso estado errante e da duração da vossa perturbação levaria a crer que não sois muito feliz, e as vossas qualidades, no entanto, deveriam fazer supor o contrário. Há, aliás, Espíritos errantes que são felizes, como os há infelizes. – R. Estou num estado transitório; as virtudes humanas adquirem aqui o seu verdadeiro valor. Sem dúvida, o meu estado é mil vezes preferível ao da encarnação terrestre; mas sempre carreguei em mim as aspirações do verdadeiro bem e do verdadeiro belo, e minha alma não estará satisfeita senão quando voar para os pés do Criador.

Sr. CARDON, médico.

O senhor Cardon passara uma parte de sua vida na marinha mercante, na qualidade de médico de baleeiro, onde