O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO III 1495

hauriu hábitos e idéias um pouco materiais; retirado na aldeia de J..., ali exercia a modesta profissão de médico do campo. Hávia algum tempo, adquirira a certeza de que estava afetado de uma hipertrofia do coração, e, sabendo que essa moléstia é incurável, o pensamento da morte mergulhou-o numa sombria melancolia, da qual nada podia distraí-lo. Em torno de dois meses antes, predisse o seu fim, marcando o dia; quando se viu prestes para morrer, reuniu a sua família ao seu redor para dar-lhe um último adeus. Sua mulher, sua mãe, seus três filhos e outros parentes estavam reunidos ao redor de seu leito; no momento em que sua mulher tentava erguê-lo, ele se abaixou, tornou-se de um azul lívido, seus olhos se fecharam, e foi julgado morto; sua mulher colocou-se diante dele para esconder esse espetáculo de seus filhos. Depois de alguns minutos, ele reabriu os olhos; seu rosto, por assim dizer, iluminado, tomou uma expressão de radiosa beatitude, e exclamou: "Oh! Meus filhos, quanto é belo! Quanto é sublime! Oh! A morte! Que benefício! Que coisa doce! Estava morto e senti a minha alma elevar-se bem alto, bem alto; mas Deus permitiu-me retornar para vos dizer: "Não deveis temer a morte, é a libertação..." Que não posso vos pintar a magnificência do que vi e as impressões das quais me senti penetrado! Mas não poderíeis compreendê-lo... Oh! Meus filhos, conduzi-vos sempre de maneira a merecerem essa inefável felicidade, reservada aos homens de bem; vivei segundo a caridade; se tendes alguma coisa, dai uma parte dela àqueles a quem falta o necessário... Minha querida mulher, deixo-te numa posição que não é feliz; devem-nos dinheiro, mas, a isso te conjuro, não atormenteis aqueles que nos devem; se estiverem em dificuldade, espera para que possam liquidar, e aqueles que não o puderem, fazei-lhes o sacrifício: Deus, por isso, recompensar-te-á. Tu, meu filho, trabalha para sustentar tua mãe; seja sempre homem honesto e guarda-te de nada fazer que possa desonrar a nossa família. Toma esta cruz que vem de minha mãe; não a deixes nunca, e que ela te lembre sempre os meus últimos conselhos.... Meus filhos, ajudai-vos e sustentai-vos mutuamente; que a boa harmonia reine entre vós; não sede nem vãos, nem orgulhosos; perdoai aos vossos inimigos, se quereis que Deus vos perdoe..."Depois, tendo feito seus filhos se aproximarem, estendeu suas mãos para eles e acrescentou: "Meus filhos! Eu vos abençoo." E seus olhos se fecharam, de vez, para sempre; mas seu rosto conservou uma expressão