O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO IV 1516

se excusar aos próprios olhos, e ainda um resto do orgulho: eles não admitem haver falido por suas faltas. Deus não dá a ninguém acima do que se pode carregar; não pede a ninguém mais do que se possa lhe dar; não exige que a árvore nascente carregue os frutos daquela que tem todo o seu crescimento. Deus dá aos Espíritos a liberdade; o que lhes falta é a vontade, e a vontade depende só deles; com a vontade, não há inclinações viciosas que não se possam vencer; mas, quando se compraz numa tendência, é natural que não se façam esforços para superá-la. Não é necessário, portanto, tomar senão a si as conseqüências que disso resultem.

P. Tendes a consciência de vossas faltas, é um primeiro passo para a melhoria. – R. Esta consciência é ainda um sofrimento. Para muitos Espíritos, o sofrimento é um efeito quase material, porque, agarrados ainda à humanidade de sua última existência, não percebem as sensações morais. O meu Espírito está desligado da matéria, e o sentimento moral aumentou de tudo o que as sensações cruas físicas tinham de horrível.

P. Entrevedes um fim para os vossos sofrimentos? – R. Sei que não serão eternos; o fim não o entrevejo ainda; me é necessário antes recomeçar a prova.

P. Esperais recomeçar logo? – R. Não sei ainda.

P. Tendes a lembrança de vossos antecedentes? Eu vos pergunto com um fim instrutivo. – R. Sim, teus guias aí estão e sabem o que te é necessário. Vivi sob Marco Aurélio. Ali, poderoso ainda, já sucumbi pelo orgulho, causa de todas as quedas. Depois de errar por séculos, quis experimentar uma vida obscura. Pobre estudante, mendiguei o meu pão, mas o orgulho aí estava sempre; o Espírito adquirira em ciência, mas não em virtude. Sábio e ambicioso, vendi a minha alma a quem mais desse, servindo para todas as vinganças, todos os ódios. Sentia-me culpado, mas a sede de honrarias, de riquezas, abafava os gritos de minha consciência. A expiação ainda foi longa e cruel. Enfim, quis, na minha última encarnação, recomeçar uma vida de luxo e de poder; pensando dominar os escolhos, não escutei os avisos: orgulho que ainda me levou a fiar no meu próprio julgamento, antes que no daqueles amigos protetores que não cessam de velar sobre nós; sabes o resultado desta última tentativa.

Hoje, enfim, compreendo e espero na misericórdia do