O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO IV 1521

Embora a morte remontasse a alguns dias, o Espírito ainda lhe sentia todas as angústias. É evidente que não se dava conta, de nenhum modo, de sua situação; acreditava-se ainda vivo, lutando contra as ondas e, todavia, fala de seu corpo como se estivesse separado dele; chama por socorro e diz que não quer morrer, e um instante depois fala da causa de sua morte, que reconhece ser um castigo; tudo isso denota a confusão de idéias que, quase sempre, segue-se às mortes violentas.

Dois meses mais tarde, em 2 de fevereiro de 1864, se comunicou de novo, espontaneamente, pelo mesmo médium, e lhe ditou o que segue:

"A piedade que tivestes por meus sofrimentos tão horríveis aliviou-me. Eu compreendo a esperança; entrevejo o perdão, mas depois do castigo da falta cometida. Sofro sempre, e se Deus permite que, durante alguns momentos, entreveja o fim de minha infelicidade, não é senão às preces de almas caridosas, tocadas pela minha situação, que devo esse abrandamento. Ó esperança, raio do céu, quão benigna és quando te sinto nascer em minha alma!...Mas, ai de mim! O abismo se abre; o terror e o sofrimento fazem apagar essa lembrança da misericórdia... A noite; sempre a noite!... A água, o ruído das vagas que vão engolir o meu corpo, não são senão uma fraca imagem do horror que cerca o meu pobre Espírito... Sou mais calmo quando posso estar perto de vós; porque do mesmo modo que um terrível segredo, depositado no seio de um amigo, alivia aquele a quem oprimia, do mesmo modo a vossa piedade, motivada pela confidência de minha miséria, acalma o meu mal e repousa o meu Espírito. Vossas preces me fazem bem; não mas recuseis. Não quero cair mais nesse horrível sonho que se faz realidade quando eu o vejo... Tomai o lápis mais freqüentemente; isto me faz tanto bem, em me comunicar por vós!"

Daí há alguns dias, este mesmo Espírito tendo sido evocado numa reunião espírita, de Paris, foram-lhe dirigidas as perguntas seguintes, às quais respondeu por uma única e mesma comunicação, e por um outro médium.

Que vos levou a se manifestar espontaneamente ao primeiro médium pelo qual vos comunicastes? – Quanto tempo fazia que estáveis morto, quando vos manifestastes? – Quando vos comunicastes, parecíeis incerto se estáveis