O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO IV 1523

faltas passadas por uma última expiação, a da morte cruel que sofreu; ele mesmo quis se purificar, sofrendo as torturas que fizera outros sofrerem; e notai que uma idéia o perseguia: o lamento de ver que se lhe considerava como um mártir. Crede que lhe será tido em conta esse sentimento de humildade. Doravante, deixou o caminho de expiação para entrar no de reabilitação; por vossas preces podeis sustentá-lo, e fazê-lo caminhar mais firme e mais seguro.

FRANÇOIS RIQUIER

François Riquier, homem muito comum, era um velho avarento e solteirão, morto em C..., em 1857, deixando uma fortuna bastante considerável aos colaterais. Outrora, foi o senhorio de uma senhora que depois o esquecera totalmente, e ignorando mesmo se ainda estava neste mundo. Em 1862, a filha dessa senhora, que estava sujeita a crises de catalepsia seguidas de um sono magnético espontâneo, e que, por outro lado, era muito boa médium escrevente, viu, em seu sonho, o senhor Riquier que, disse ela, queria dirigir-se à sua mãe. Alguns dias depois, uma vez que se manifestara espontaneamente e testemunhara o desejo de falar a essa senhora, teve-se, com ele, a seguinte conversa:

P. Que quereis de nós? – R. Meu dinheiro, que me tomaram todo, os miseráveis, a fim de o repartirem! Venderam as minhas quintas, as minhas casas, tudo, para as repartirem. Dilapidaram os meus bens, como se não fossem mais meus. Fazei me que se faça justiça, porque eu, eles não escutam, e não quero ver mais tais infames. Dizem que eu era usurário, e guardam o meu dinheiro! Por que não me querem devolver se acham que foi mal adquirido?

P. Mas estás morto, meu homenzinho; não tendes mais necessidade de dinheiro. Pedi a Deus para ter uma nova existência pobre para expiar a avareza desta. – R. Não, eu não poderia mais viver pobre. É necessário o meu dinheiro para me fazer viver. Aliás, não tenho necessidade de ter outra vida, uma vez que vivo a presente.

P. (A pergunta seguinte foi feita com o objetivo de conduzi-lo à realidade.) Sofreis? – R. Oh! Sim, eu sofro torturas piores do que a doença mais cruel, porque é a minha alma que suporta essas torturas. Tenho sempre presente no