O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO IV 1525

vaga! Onde encontrar a coragem, a esperança para isso? Trate, pois, cérebro limitado, de compreender o que é um dia que não acaba nunca. Ele é um dia, um ano, um século? Que sei eu disso? As horas não o dividem nada; as estações não o variam; eterno e lento como a água que escorre do rochedo, esse dia execrado, esse dia maldito, pesa sobre mim como uma moldura de chumbo... Eu sofro!... Não vejo nada ao meu redor, senão sombras silenciosas e indiferentes... Eu sofro!

Eu o sei, todavia, acima dessa miséria reina Deus, o pai, o senhor, aquele para quem tudo se encaminha. Quero pensar nele, quero implorar-lhe misericórdia.

Eu me debato e me arrasto como um estropiado que rasteja ao longo do caminho. Não sei que poder me atrai para ti; talvez sejas a salvação? Eu o deixo um pouco calma, um pouco reanimada; como um velho tiritante que se reanima a um raio de Sol, minha alma gelada haure uma nova vida aproximando-se de ti.

II. A minha infelicidade aumenta a cada dia; aumenta na medida em que o conhecimento da eternidade se desenvolve em mim. Ó miséria! Quanto vos maldigo, horas culpáveis, horas de egoísmo e de esquecimento, onde, desconhecendo toda a caridade, todo o devotamento, não pensava senão no meu bem-estar! Sede malditos, arranjos humanos! Vãs preocupações de interesses materiais! Sede malditos, vós que me enceguecestes e me perdestes! Estou roída pelo incessante lamento do tempo perdido. Que te direi, a ti que me escutas? Vela sem cessar sobre ti; ama os outros mais que a ti mesmo; não te demores nos caminhos do bem-estar; não engordes teu corpo às expensas de tua alma; vigie, como dizia o Salvador aos seus discípulos. Não me agradeças por esses conselhos, meu Espírito concebe-os, meu coração nunca os escutou. Como um cão chicoteado, o medo me faz rastejar, mas não conheço ainda o desembaraçado amor. Sua divina aurora tarda muito a se levantar! Ora por minha alma ressequida e tão miserável!

III. Venho te procurar até aqui, uma vez que me esqueces. Crês, pois, que preces isoladas, o meu nome pronunciado, bastarão ao apaziguamento de minha pena? Não, cem vezes não. Eu rujo de dor; erro sem repouso, sem asilo, sem esperança, sentindo o eterno aguilhão do castigo se