O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO IV 1526

enterrar na minha alma revoltada. Rio quando ouço os vossos lamentos, quando vos vejo abatidos! Que são as vossas pálidas misérias! Que são as vossas lágrimas! Que são os vossos tormentos que o sono suspende! É que durmo, eu? Eu quero, entendes? Eu quero que, deixando as dissertações filosóficas, te ocupes de mim; que faças que os outros de mim se ocupem. Não tenho expressões para pintar a angústia desse tempo que foge, sem que as horas lhe marquem os períodos. Vejo apenas um fraco raio de esperança, e esta esperança tu ma deste; não me abandones pois.

IV. O Espírito de São Luís. – Este quadro não é senão muito verdadeiro, porque não é, de modo algum, carregado. Perguntar-se-á, talvez, o que fez essa mulher para ser tão miserável. Cometeu ela algum crime horrível? Foi roubada, assassinada? Não; nada fez que merecera a justiça dos homens. Ao contrário, ela zombou do que chamais a felicidade terrestre; beleza, fortuna, prazeres, adulações, tudo lhe sorria, nada lhe faltava, e dizia-se em vendo-a: Que mulher feliz! E invejava-se a sua sorte. O que ela fez? Foi egoísta; tinha tudo, exceto bom coração. Se não violou a lei dos homens, ela violou a lei de Deus, porque desconheceu a caridade,a primeira das virtudes. Não amou senão a ela mesma, agora não é amada por ninguém; nada deu, nada se lhe dá; está isolada, desamparada, abandonada, perdida no espaço onde ninguém pensa nela, ninguém se ocupa dela: é o que faz o seu suplício. Como não procurou senão os gozos mundanos, e hoje esses gozos não mais existem, o vazio se fez ao seu redor; ela não vê senão o nada, e o nada parece-lhe a eternidade. Não sofre mais as torturas físicas, os diabos não vêm mais atormentá-la, mas isso não é mais necessário: ela se atormenta a si mesma, e antes sofre muito, porque esses diabos ainda seriam seres que nela pensariam. O egoísmo fez a sua alegria na Terra: perseguiu-a; agora é o verme que lhe rói o coração, seu verdadeiro demônio.

SÃO LUÍS.

V. Eu vos falarei da diferença importante que existe entre a moral divina e a moral humana. A primeira assiste a mulher adúltera em seu abandono, e diz aos pecadores: – " Arrependei-vos, e o reino dos céus vos será aberto." A moral divina, enfim, aceita todos os arrependimentos e todas as