O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO IV 1530

trevas onde estão mergulhadas certas almas sofredoras? Seriam ali as trevas das quais são, tão freqüentemente, faladas nas Escrituras? – R. As trevas, das quais se falam, em realidade, são aquelas designadas por Jesus e os profetas, em falando do castigo dos maus. Mas ainda não está aí senão uma figura, destinada a ferir os sentidos materiais de seus contemporâneos, que não compreenderiam a punição de maneira espiritual. Certos Espíritos estão mergulhados nas trevas, mas é necessário entender por isso uma verdadeira noite da alma, comparável à obscuridade da qual está marcada a inteligência do idiota. Não é uma loucura da alma, mas uma inconsciência dela mesma e do que a cerca, que se produz tão bem tanto na presença como na ausência da luz material. É, sobretudo, uma punição daqueles que duvidaram do destino do seu ser; acreditaram no nada, e a aparência desse nada vem fazer o seu suplício, até que a alma, retornando sobre si mesma, venha quebrar com energia o entrelaçamento do enervamento moral que a prende; do mesmo modo que um homem acabrunhado por um sonho penoso, luta, num momento dado, com toda a força de suas faculdades, contra os terrores, pelos quais, de início, se deixou dominar. Essa redução momentânea da alma a um nada fictício, com o sentimento de sua existência, é um sofrimento mais cruel do que se poderia imaginar, em razão dessa aparência de repouso, com a qual está marcado; esse repouso forçado, essa nulidade de seu ser, essa incerteza, é que fazem o seu suplício; é o aborrecimento, do qual está acabrunhada, que é o castigo mais terrível porque ela não percebe nada ao seu redor, nem coisas, nem seres, são, para ela, verdadeiras trevas.

SÃO LUÍS.

(Claire.) Eis-me aqui. Posso também responder à pergunta colocada sobre as trevas, porque errei e sofri muito tempo nesses limbos onde tudo é soluço e misérias. Sim, as trevas visíveis, das quais falam as Escrituras, existem, e os infelizes que, tendo terminado as suas provas terrestres, deixam a vida, ignorantes ou culpados, são mergulhados na fria região, ignorantes deles mesmos e de seus destinos. Crêem na eternidade de sua situação, balbuciam ainda as palavras da vida que os seduziram, espantam-se e amedrontam-se com a sua grande solidão; são trevas, esse lugar vazio e