O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO V 1536

17. Esse estado é sempre a conseqüência do suicídio? – R. Sim, o Espírito do suicida está ligado ao seu corpo até o termo de sua vida; a morte natural é a libertação da vida; o suicida a quebra inteiramente.

18. Esse estado é o mesmo em toda morte acidental, independente da vontade, e que abrevia a duração natural da vida? – R. Não... Que entendeis por suicídio? O Espírito não é culpado senão de suas obras.

Esta dúvida da morte é muito comum nas pessoas falecidas há pouco, e sobretudo naquelas que, durante a sua vida, não elevaram sua alma acima da matéria. É um fenômeno bizarro à primeira vista, mas que se explica muito naturalmente. Se a um indivíduo, posto em sonambulismo pela primeira vez, pergunta-se se dorme, ele responde, quase sempre, não, e a sua resposta é lógica: o interrogador foi quem colocou mal a questão servindo-se de um termo impróprio. A idéia do sono, na nossa língua usual, está ligada à suspensão de todas as faculdades sensitivas; ora, o sonâmbulo que pensa, que vê, e que sente, que tem a consciência de sua liberdade moral, não pensa dormir, e com efeito não dorme, na acepção vulgar da palavra. Por isso, ele responde não até que esteja familiarizado com essa maneira de entender a coisa. Ocorre o mesmo no homem que acaba de morrer; para ele, a morte é o aniquilamento do ser; ora, como o sonâmbulo, ele vê, sente e fala; portanto, para ele, não está morto, e o diz até o momento em que adquire a intuição de seu novo estado. Essa ilusão é sempre mais ou menos penosa, porque nunca é completa e deixa o Espírito numa certa ansiedade. No exemplo acima, ela é um verdadeiro suplício pela sensação dos vermes que roem o corpo, e pela sua duração, que deve ser a que teria a vida desse homem se não fosse abreviada. Este estado é freqüente entre os suicidas, mas não se apresenta sempre em condições idênticas; varia sobretudo em duração e intensidade segundo as circustâncias agravantes ou atenuantes da falta. A sensação dos vermes e da decomposição do corpo não é mais especial nos suicidas; ela é freqüente naqueles que viveram mais da vida material que da vida espiritual. Em princípio, não há falta impune; mas não há regra uniforme e absoluta nos meios de punição.

O PAI E O CONSCRITO

No começo da guerra com a Itália, em 1859, um negociante de Paris, pai de família, gozando da estima geral de todos os seus vizinhos, tinha um filho que fora sorteado para o serviço militar; achando-se, por sua posição, na