O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO V 1556

vícios da Humanidade? Eles deveriam, como eu, estacionar aqui por algum tempo, antes de irem para as regiões mais elevadas. É um pandemônio curioso, que me agrada observar, e aqui permaneço.

Se bem que o Espírito declare encontrar-se numa sociedade muito misturada, e por conseqüência de Espíritos inferiores, sua linguagem dava lugar para nos surpreender, em razão de seu gênero de morte, ao qual não fez nenhuma alusão, porque de outro modo seria bem o reflexo de seu caráter. Isso nos deixou algumas dúvidas sobre a sua identidade.

P. Quereis dizer-nos, eu vos peço, como morrestes? – R. Como morri? Pela morte que escolhi; ela me agradou; meditei muito tempo sobre a que deveria escolher para me libertar da vida. E, na verdade, confesso que não ganhei grande coisa, a não ser de estar livre de meus cuidados materiais, mas para reencontrá-los mais graves, mais penosos na minha posição de Espírito, da qual não prevejo o fim.

P. (Ao guia do médium.) – Foi bem o Espírito do Sr. Félicien que respondeu? Essa linguagem quase indiferente nos espanta num suicida. – R. Sim; mas por um sentimento desculpável em sua posição, e que não compreendeis, ele não queria revelar o seu gênero de morte ao médium; foi por isso que disse palavras ocas; acabou por confessar, levado pela vossa pergunta direta, mas está muito aflito com isso. Ele sofre muito por ter se suicidado, e afasta, tanto quanto possa, tudo aquilo que lhe lembra esse fim funesto.

P. (Ao Espírito.) – A vossa morte nos afetou tanto mais quanto prevíamos as tristes conseqüências para vós, e em razão, sobretudo, da estima e do apego que tínhamos por vós. Pessoalmente, nunca esqueci o quanto fostes bom e cortês para comigo. Ficaria feliz se vos pudesse testemunhar o meu reconhecimento, se posso fazer alguma coisa que vos seja útil. – R. E, todavia, eu não podia escapar, de outro modo, aos embaraços de minha posição material. Agora não tenho necessidade senão de preces; sobretudo, orai para que eu fique livre dos horríveis acompanhantes que estão junto de mim e que me obsidiam com seus risos, seus gritos e suas zombarias infernais. Eles me chamam frouxo, e têm razão; é covardia tirar a vida. Eis quatro vezes que sucumbo a essa prova. Todavia, eu muito me prometera não mais falir...