O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO V 1560

mares, e fui repelido. Louco de dor, resolvi tirar-me a vida, depois de saciar a minha vingança, assassinando o meu rival odiado. Os meios violentos, todavia, me repugnavam; eu tremia à idéia desse crime, mas o ciúme me dominou. Na véspera do dia em que a minha bem-amada deveria ser dele, ele morreu envenenado pelos meus cuidados, achando este meio mais fácil. Assim se explicam essas reminescências do passado. Sim, já vivi, e é necessário que viva ainda... Ó meu Deus! tende piedade de minha fraqueza e de minhas lágrimas.

4. Deploramos essa infelicidade que retardou o vosso adiantamento, e vos lastimamos sinceramente; mas, uma vez que vos arrependestes, Deus terá piedade de vós. Dizei-nos, eu vos peço, se executastes o vosso projeto de suicídio – R. Não; confesso, com a minha vergonha, que a esperança retornou ao meu coração, queria desfrutar o preço de meu crime; mas os meus remorsos me traíram; expiei pelo último suplício esse momento de alucinação; enforquei-me.

5. Tínheis consciência, dessa má ação, na vossa última existência? – R. Somente nos últimos anos de minha vida, e eis como. Eu era bom por natureza; depois de submetido, como todos os Espíritos homicidas, ao tormento da visão contínua de minha vítima, que me perseguia como um remorso vivo, disso me livrei depois de muitos anos pelas minhas preces e o meu arrependimento. Recomeçava a vida uma outra vez, a última, e a atravessava pacífico e tímido. Tinha em mim uma vaga intuição de minha fraqueza nativa e de minha falta anterior, da qual conservei a lembrança latente. Mas um Espírito obsessor e vingativo, que não era outro senão o pai de minha vítima, não teve grande dificuldade para se apoderar de mim e fazer reviver, em meu coração, como num espelho mágico, as lembranças do passado.

Alternativamente, influenciado por ele e pelo guia que me protegia, eu era o envenenador, ou o pai de família que ganhava o pão de seus filhos com o seu trabalho. Fascinado por esse demônio obsessor, fui por ele impelido ao suicídio. Sou muito culpado, é verdade, porém, menos do que se o tivesse resolvido eu mesmo. Os suicidas de minha categoria, e que são muito fracos para resistirem aos Espíritos obsessores, são menos culpados e menos punidos que aqueles que se tiram a vida pelo único fato da ação de seu livre arbítrio. Orai comigo pelo Espírito que me influenciou tão fatalmente, a fim de que ele abdique de seus sentimentos de