O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO II - CAP. V - CONSIDERAÇÕES SOBRE A PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS 157

os meios de reparar suas faltas? "Dois fabricantes tinham, cada um, um operário que podia aspirar a vir a ser o sócio do patrão. Ora, aconteceu que esses dois operários empregaram uma vez muito mal a sua jornada de trabalho e mereceram ser despedidos. Um dos dois fabricantes despediu seu operário, malgrado suas súplicas, e ele não tendo encontrado trabalho, morreu de miséria. O outro disse ao seu: perdeste um dia e me deves outro em compensação. Executaste mal o teu trabalho e me deves a reparação. Eu te permito recomeçar; trata de executá-lo bem e eu te conservarei, podendo ainda aspirar sempre à posição superior que te prometi." Há necessidade de se perguntar qual dos dois fabricantes foi mais humano? Será Deus, a própria clemência, mais impiedoso que um homem? O pensamento de que nosso destino está fixado para sempre em razão de alguns anos de provas, ainda mesmo quando não tenha dependido de nós alcançarmos a perfeição sobre a Terra, tem qualquer coisa de doloroso, enquanto que a idéia contrária é eminentemente consoladora: ela nos deixa a esperança. Assim, sem nos pronunciarmos pró ou contra a pluralidade das existências, sem admitir uma hipótese à outra, diremos que, se podemos escolher, não existe ninguém que prefira um julgamento sem apelação. Um filósofo disse que se Deus não existisse seria preciso inventá-lo para felicidade do gênero humano; poder-se-ia dizer o mesmo da pluralidade das existências. Mas, como dissemos, Deus não nos pede permissão, não consulta nosso gosto; isto é ou não é. Vejamos de que lado estão as probabilidades e tomemos a questão sob outro ponto de vista, sempre abstração feita do ensinamento dos Espíritos e unicamente como estudo filosófico.

Se não há reencarnação, não há senão uma existência corporal, isto é evidente. Se nossa atual existência corporal é a única, a alma de cada homem é criada no seu nascimento, a menos que se admita a anterioridade da alma, caso em que se perguntaria o que era a alma antes do seu nascimento e se esse estado não consistiria, de alguma forma uma existência. Não há meio-termo: ou a alma existia ou não existia antes do corpo; se ela existia antes do corpo, qual era a sua situação? Tinha, ou não, consciência de si mesma? Se não tinha consciência é como se não existisse. Se tinha sua individualidade, era ela progressiva ou estacionária? Num ou noutro caso, em que grau estava ao tomar o corpo? Admitindo, de acordo com a crença vulgar, que a alma nasce com o corpo,