O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO VI 1575

minhas observações; mas então não compreendo senão melhor a enormidade de meus crimes; e se sofro menos de um lado, as minhas torturas aumentam de outro pelo remorso; mas, ao menos, tenho a esperança.

18. Se devêsseis retomar uma existência corpórea, qual escolheríeis? – R. Ainda não ouvi bastante e bastante refleti para sabê-lo.

19. Durante o vosso longo isolamento, e pode-se dizer o vosso cativeiro, tivestes remorsos? – R. Nem o menor, e foi por isso que sofri por tão longo tempo; foi somente quando comecei a senti-los, que foram provocadas, com o meu desconhecimento, as circunstâncias que conduziram à minha evocação, à qual devo o começo da minha libertação. Obrigado, pois, a vós que tivestes piedade de mim e me esclarecestes.

Vimos, com efeito, avaros sofrerem a visão do ouro, que para eles se tornava uma verdadeira quimera; orgulhosos, atormentados pelo ciúme de honras que viam dar, e que não se dirigiam a eles; homens que comandaram sobre a Terra, humilhados pelo poder invisível que os constrangiam a obedecer, e pela visão de seus subordinados que não se curvavam mais diante deles. Os ateus sofrerem das angústias das incertezas, encontrarem-se num isolamento absoluto no meio da imensidão, sem encontrar nenhum ser que pudesse esclarecê-los. No mundo dos Espíritos, há alegrias para todas as virtudes, e há penas para todas as faltas; e aquelas que a lei dos homens não atingem, são sempre atingidas pela lei de Deus.

Além disso, há a se notar que as mesmas faltas, embora cometidas em condições idênticas, são punidas por castigos algumas vezes muito diferentes, segundo o grau de adiantamento intelectual do Espírito. Aos Espíritos mais atrasados, e de uma natureza bruta como aquele de que se trata aqui, são infligidas penas de alguma sorte mais materiais que morais, ao passo que é ao contrário para  aqueles  cuja  inteligência e sensibilidade  são mais desenvolvidas. Aos primeiros, são necessários  castigos  apropriados à rudeza de sua casca, para fazê-los compreender os desagrados de sua posição, e inspirar-lhes o desejo de sair dela; assim é que somente a vergonha, por exemplo, que não faria senão pouco ou nenhuma impressão sobre eles, seria intolerável para outros.

Nesse código penal divino, a sabedoria, a bondade e a previdência de Deus, por suas criaturas, se revelam até nas pequeninas coisas; tudo é proporcional; tudo está combinado com uma admirável solicitude para facilitar aos culpados os meios de se