O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO VI 1578

porque não sabeis o que eu sofro!... não, não o sabeis; não podeis compreendê-lo... é horrível!... A guilhotina!... o que é isso, ao lado do que suporto agora! Não é nada; é um instante. Mas este fogo que me devora, é pior, é uma morte contínua; é um sofrimento que não deixa trégua, nem repouso... que não tem fim!

"E minhas vítimas que estão ali, ao meu redor... que mostram as suas feridas... que me perseguem com os  seus olhares!... Elas estão ali, diante de mim... eu as vejo todas... sim, todas..., eu as vejo todas; não posso evitá-las!... E esse mar de sangue! e esse ouro manchado de sangue!... tudo está ali! sempre diante de mim!... Sentis o odor do sangue... Do sangue, sempre do sangue... Ei-las, essas pobres vítimas; elas me imploram... e eu, sem piedade, eu firo... eu firo... eu firo sempre!... O sangue me embriaga!

"Eu acreditava que depois de minha morte tudo estaria acabado; foi porque desafiei o suplício; desafiei a Deus, e reneguei-o!... E eis que, quando me acreditava aniquilado para sempre, um despertar terrível se fez... oh! sim, terrível! Estou cercado de cadáveres, de rostos ameaçadores... eu caminho no sangue... Acreditava estar morto, e eu vivo!... É terrível!... É horrível! Mais horrível que todos os suplícios da Terra!

"Oh! se todos os homens pudessem saber o que há além da vida! Saberiam o quanto custa fazer o mal; não haveria mais assassinos, mais criminosos, mais malfeitores! Eu gostaria que todos os assassinos pudessem ver o que vejo e o que suporto... Oh! não, eles não o seriam mais... É muito terrível sofrer o que eu sofro!

"Sei bem que eu o mereci, ó meu Deus! Porque não tive piedade de minhas vítimas. Eu repeli as suas mãos suplicantes quando elas me pediam para poupá-las. Sim, eu mesmo fui cruel; eu, covardemente, as matei para ter o seu ouro!... Fui impiedoso; vos reneguei; blasfemei sobre o seu santo nome quis atordoar-me; por isso queria me persuadir de que vós não existíeis... Ó meu Deus! Eu sou um grande criminoso! Eu o compreendo agora. Mas não tereis piedade de mim?... Sois Deus, quer dizer, a bondade, a misericórdia! Sois todo-poderoso!

"Piedade, Senhor! oh! piedade! piedade! Isso vos peço, não sede inflexível; livrai-me desta visão odiosa, destas