O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO VII 1598

UM ESPÍRITO ENTEDIADO

(Bordeaux, 1862.)

Este Espírito se apresenta espontaneamente ao médium, e reclama preces.

1. O que vos levou a pedir preces? – R. Estou cansado de perambular sem objetivo. – Há muito tempo estais nessa posição? – R. Cento e oitenta anos mais ou menos. – Que fizestes sobre a Terra? – R. Nada de bom.

2. Qual é a vossa posição entre os Espíritos? – R. Estou entre os entediados. – Isso não forma uma categoria. – R. Tudo forma categoria entre nós. Cada sensação encontra ou seus semelhantes, ou seus simpáticos que se reúnem.

3. Por que, se não estáveis condenado ao sofrimento, ficastes tão longo tempo sem avançar? – R. Estava condenado ao tédio, que é um sofrimento entre nós; tudo que não é alegria é dor. – Fostes forçado, pois, a permanecer errante, apesar de vós? – R. Essas são causas muito sutis para a vossa inteligência material. – Tentai fazer-me compreendê-las; e isso será um começo de utilidade para vós. – R. Eu não poderia, não tendo termo de comparação. Uma vida extinta sobre a Terra deixa ao Espírito que não a aproveitou, o que o fogo deixa ao papel que consumiu: faíscas, que lembram as cinzas ainda unidas entre elas, quais foram a causa de seu nascimento, ou se queres, da destruição do papel. Essas faíscas são a lembrança dos laços terrestres que sulcam o Espírito, até que haja dispersado as cinzas de seu corpo. Só então se reencontra, essência etérea, e deseja o progresso.

4. Que pôde vos ocasionar o tédio que lamentais? – R. Conseqüência da existência. O tédio é o filho da falta de obras; eu não soube empregar os longos anos que passei sobre a Terra, e a sua conseqüência se fez sentir no nosso mundo.

5. Os Espíritos que como vós erram em prova ao tédio, não podem fazer cessar esse estado quando querem? – R. Não, nem sempre o podem, porque o tédio paralisa a sua vontade, sofrem as conseqüências de sua existência; foram inúteis, não tiveram nenhuma iniciativa, não encontram nenhum concurso entre eles. São abandonados a si mesmos, até que a lassidão desse estado neutro fá-los desejar mudá-lo; então, à menor vontade que desperte neles, encontram o