O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO VIII 1609

a fraca parte que restava a esses pobres seres. Em uma palavra, fiz tudo o que há de mais impiedoso contra o sofrimento e a miséria. Perdi, enfim, o que chamais a vida, em tormentos e sofrimentos horríveis; minha morte foi o modelo de terror para todos aqueles que, como eu, mas sobre uma menor escala, partilhavam a minha maneira de ver. Permaneci no estado de Espírito errante três séculos e meio, e quando, ao cabo desse lapso de tempo, compreendi que o objetivo da encarnação era diferente daquele que os meus sentidos grosseiros e obtusos me fizeram perseguir, obtive, à força de preces, de resignação e de lamentos, a permissão de tomar a tarefa material de suportar os mesmos sofrimentos e mais ainda, que fizera suportar. Obtive essa permissão, e Deus me deixou o direito, por meu livre arbítrio, de aumentar os meus sofrimentos morais e físicos. Graças ao socorro dos bons Espíritos que me assistiam, persisti na minha resolução de praticar o bem, e por isso agradeço-lhes, porque me impediram de sucumbir sob a tarefa que tomara.

Enfim, cumpri uma existência que resgatou, pela sua abnegação e sua caridade, o que a outra fora de cruel e de injusta. Nasci de pais pobres; órfão de boa hora, aprendi a bastar-me a mim mesmo, na idade em que se é ainda considerado como incapaz de compreender. Vivi só, sem amor, sem afeições, e mesmo, no começo de minha vida, suportei a brutalidade que exercera sobre os outros. Diz-se que as somas recolhidas por mim foram todas consagradas ao alívio de meus semelhantes; é um fato exato, e sem ênfase como sem orgulho, acrescento que, com freqüência ao preço de privações relativamente fortes, muito fortes, aumentei o bem que me permitia fazer a caridade pública.

Morri com calma, confiante no preço que obtivera a reparação feita por minha última existência, e estou recompensado além de minhas secretas aspirações. Hoje, sou feliz, bem feliz em poder vos dizer que quem se eleva será rebaixado, e que aquele que se humilha será elevado.

P. Quereis nos dizer, eu vos peço, em que consistiu a vossa expiação no mundo dos Espíritos, e quanto tempo ela durou desde a vossa morte até o momento em que a vossa sorte foi abrandada pelo efeito do arrependimento e das boas resoluções que tomastes. Dizei-nos também o que provocou em vós essa mudança nas vossas idéias no estado de Espírito.