O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO VIII 1610

R. Remeteis-me em memória de lembranças muito dolorosas! Quanto sofri... mas não me queixo: eu me recordo!... Quereis saber de qual natureza foia minha expiação; ei-la em todo o seu terrível horror.

Carrasco, como vos disse, de toda espécie de bom sentimento, permaneci muito tempo, bem muito tempo, ligado pelo meu perispírito ao meu corpo em decomposição. Sentia-me, até à sua completa putrefação, roído pelos vermes que me faziam sofrer muito! Quando fui desembaraçado dos laços que me prendiam ao instrumento de meus suplícios, suportei um ainda mais cruel. Depois do sofrimento físico, veio o sofrimento moral, e este durou muito mais tempo ainda que o primeiro. Fui colocado em presença de todas as vítimas que torturara. Periodicamente, e por uma força maior que a minha, era conduzido em face de minhas ações culposas. Via física e moralmente todas as dores que fizera suportar. Oh! meus amigos, quanto é terrível a visão constante daqueles a quem se fez o mal! Disso tendes um fraco exemplo entre vós, na confrontação do acusado contra a vítima.

Eis, abreviadamente, o que sofri durante dois séculos e meio, até que Deus, tocado pela minha dor e o meu arrependimento, solicitado pelos guias, que me assistiam, permitiu que tomasse o caminho de expiação que conheceis.

P. Um motivo particular vos levou a escolher a vossa última existência na religião israelita? – R. Não escolhi por mim, mas aceitei segundo o conselho de meus guias. A religião israelita acrescentava uma pequena humilhação a mais em minha vida de expiação; porque, sobretudo em certos países, a maioria dos encarnados despreza os Israelitas, e particularmente os Judeus mendigos.

P. Na vossa última existência, em que idade começastes a executar as resoluções que tomastes? Como esse pensamento vos chegou? Durante o tempo que exercíeis assim a caridade, com tanta abnegação, tínheis uma intuição qualquer da causa que a isso vos levava?

R. Nasci de pais pobres, mas inteligentes e avaros. Jovem ainda, fui privado da afeição e das carícias de minha mãe. Senti por sua perda um desgosto tanto mais vivo que meu pai, dominado pela paixão do ganho, abandonou-me inteiramente. Meus irmãos e minhas irmãs, todos mais velhos