O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO VIII 1617

e pequenos objetos. Foi lhe dada a alcunha de conde Max, e as crianças não o chamavam nunca senão senhor conde, do que ele sorria sem melindrar-se. Por que esse título? Ninguém poderia dizê-lo; passou a ser hábito. Talvez fosse por causa de sua fisionomia e de suas maneiras, cuja distinção contrastava com os andrajos. Vários anos depois de sua morte, apareceu em sonho à filha do proprietário de um dos castelos, onde recebia a hospitalidade na estrebaria, porque não havia domicílio para ele. Disse-lhe: "Obrigado a vós por terdes lembrado do pobre Max em vossas preces, porque elas foram ouvidas pelo Senhor. Desejais saber quem sou, alma caridosa que vos interessastes pelo infeliz mendigo; vou satisfazer-vos; isso será para todos uma grande instrução."

Ele fez, então, o relato seguinte, aproximadamente nestes termos:

"Há um século e meio mais ou menos, eu era um rico e poderoso senhor deste país, mas vão, orgulhoso e enfatuado pela minha nobreza; a minha imensa fortuna nunca serviu senão aos meus prazeres, e a isso apenas ela bastava, porque eu era jogador, libertino e passava a minha vida nas orgias. Meus vassalos, que acreditava criados para o  meu uso, como os animais da fazenda, eram pressionados e mal-tratados, para proverem as minhas prodigalidades. Permanecia surdo aos seus lamentos como aos de todos os infelizes, e, segundo eu, eles deveriam se sentir muito honrados por servirem os meus caprichos. Morri com uma idade pouco avançada, esgotado pelos excessos, mas sem que provasse nenhuma infelicidade verdadeira; ao contrário, tudo parecia sorrir-me, de modo que eu era, aos olhos de todos, um dos felizes do mundo: a minha posição valeu-me suntuosos funerais, os boêmios lamentavam em mim o faustoso senhor, mas nenhuma lágrima foi vertida sobre a minha tumba, nem uma prece do coração foi dirigida a Deus por mim, e a minha memória foi amaldiçoada por todos aqueles dos quais aumentara a miséria. Ah! Quanto é terrível  a  maldição  dos infelizes que se fez! Ela não cessou de retinir nos meus ouvidos durante longos anos que me pareceram uma eternidade! E, na morte de cada uma das minhas vítimas, era um novo rosto ameaçador ou irônico que se erguia diante de mim e me perseguia sem descanso, sem que pudesse encontrar um canto escuro para subtrair-me à sua visão! Nenhum olhar