O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO VIII 1618

amigo! Meus antigos companheiros de deboche, infelizes como eu, fugiam de mim e pareciam dizer-me com desdém: "Não podes mais pagar os nossos prazeres." Oh! Quanto teria pago muito caro um instante de repouso, um copo de água para estancar a sede ardente que me devorava! Mas eu não possuía mais nada, e todo o ouro que semeei, a mãos cheias, sobre a Terra não produzira uma única bênção, nem uma só, entendeis, minha filha?

"Enfim, oprimido pela fadiga, esgotado como um viajor esfalfado que não vê o fim de seu caminho, exclamei: "Meu Deus, tende piedade de mim! Quando, pois, terminará esta horrível situação?" Então uma voz, a primeira que eu ouvia desde que deixara a Terra, disse-me: "Quando tu quiseres. Que é necessário fazer, grande Deus! respondi eu; dizei: me submeterei a tudo. – É necessário o arrependimento; humilhar-te diante daqueles que humilhastes; pedir-lhes para que intercedam por ti, porque a prece do ofendido que perdoa é sempre agradável ao Senhor." Eu me humilhei, pedi aos meus vassalos, meus servidores, que estavam ali diante de mim, e cujos rostos, de mais em mais benevolentes, acabaram por desaparecer. Isto foi, então, para mim como uma nova vida; a esperança substituiu o desespero e agradeci a Deus com todas as forças de minha alma. A voz me disse em seguida: "Príncipe!" e eu respondi: "Não há aqui outro príncipe senão o Deus Todo-poderoso que humilha os soberbos. Perdoai-me, Senhor, porque pequei; fazei de mim o servidor de meus servidores, se tal é a vossa vontade."

"Alguns anos mais tarde, nasci de novo, mas desta vez numa família de pobres camponeses. Meus pais morreram quando era ainda criança, e permaneci só no mundo e sem apoio. Ganhei minha vida como pude, ora como operário, ora como empregado de fazenda, mas sempre honestamente, porque eu acreditava em Deus desta vez. Com a idade de quarenta anos, uma doença tornou-me paralítico de todos os meus membros, e me foi necessário mendigar, durante mais de cinqüenta anos, sobre essas mesmas terras das quais fora o senhor absoluto; receber um pedaço de pão nas fazendas que possuíra, onde, por uma amarga zombaria, alcunharam-me senhor conde, freqüentemente, muito feliz por encontrar um abrigo na estrebaria do castelo que fora o meu. No meu sonho, agradava-me percorrer esse mesmo castelo onde fora déspota; quantas vezes, em meus sonhos