O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO VIII 1624

Não há, neste fato, um grande e terrível ensinamento? Assim, a justiça de Deus atinge sempre o culpado, e por ser, algumas vezes, tardia, não segue menos o seu curso. Não é eminentemente moral saber que se os grandes culpados terminam a sua existência pacificamente, e, freqüentemente na abundância dos bens terrestres, a hora de expiação soará cedo ou tarde? Penas dessa natureza se compreendem, não somente porque estão sob os nossos olhos, mas porque são lógicas; nelas se acreditou porque a razão as admite.

Uma existência honrada, pois, não isenta das provas da vida, porque foram escolhidas ou aceitas como complemento de expiação; é o pagamento de uma dívida que se quita, antes de receber o preço do progresso cumprido.

Se se considera quanto, nos séculos passados, eram freqüentes, mesmo nas classes mais elevadas e mais esclarecidas, os atos de barbárie que nos revoltam tanto hoje; quantas mortes eram cometidas nessa época, onde se jogava com a vida de seu semelhante, onde o poderoso esmagava o fraco sem escrúpulo, compreender-se-á quanto, entre os homens de nossos dias, devem haver deles que têm seu passado a lavar; não mais se admirará do número de pessoas que morrem vítimas de acidentes isolados ou de catástrofes gerais. O despotismo, o fanatismo, a ignorância e os preconceitos da idade média, e dos séculos que lhe seguiram, legaram às gerações futuras uma dívida imensa, que não foi ainda liquidada. Muitas infelicidades não nos parecem imerecidas senão porque vemos apenas o momento atual.

SR. LETIL

O Sr. Letil, fabricante de perto de Paris, morreu em abril de 1864, de um modo horrível. Uma caldeira de verniz em ebulição tendo pegado fogo, e tendo se derramado sobre ele, foi, numa piscadela de olhos, coberto por uma matéria incendiada e compreendeu, em seguida, que estava perdido. Sozinho, nesse momento, na oficina, com um jovem aprendiz, teve a coragem de ir para o seu domicílio, distante mais de duzentos metros. Quando se pôde dar-lhe os primeiros socorros, as carnes estavam queimadas e caíam aos pedaços; os ossos de uma parte do corpo, e da face, estavam à vista. Ele viveu doze horas, nos mais horríveis sofrimentos, conservando, apesar disso, toda a sua presença de espírito, até o último momento, e pondo ordem nos seus assuntos com uma perfeita lucidez. Durante essa cruel agonia, não fez ouvir nenhum pranto, nenhum murmúrio, e morreu orando a Deus.