O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO VIII 1632

Além disso, como o cretinismo poderia explicar-se; como fazê-lo concordar com a justiça e a bondade de Deus, sem admitir a pluralidade das existências? Se a alma não já viveu, é que foi criada ao mesmo tempo que o corpo; nesta hipótese, como justificar a criação de almas tão deserdadas, como as dos cretinos, da parte de um Deus justo e bom? Porque aqui, não se trata de um desses acidentes, como a loucura, por exemplo, que se pode ou prevenir ou curar; esses seres nascem e morrem no mesmo estado; não tendo nenhuma noção do bem e do mal, qual é a sua sorte na eternidade? Serão felizes como os homens inteligentes e trabalhadores? Mas por que esse favor, uma vez que nada fizeram de bem? Estarão no que se chama de limbos, quer dizer, num estado misto que não é nem a felicidade e nem a infelicidade? Mas por que essa inferioridade eterna? Foi sua falta se Deus criou os cretinos? Desafiamos todos aqueles que repelem a doutrina da reencarnação para saírem deste impasse. Com a reencarnação, ao contrário, o que parecia uma injustiça torna-se uma admirável justiça; o que é inexplicável se explica de maneira mais racional.

De resto, não sabemos porque, aqueles que repelem esta doutrina, nunca a combateram com outros argumentos que o de sua repugnância pessoal em retornar sobre a Terra. A isto se lhes responde: Para ali vos reenviar, Deus não pede a vossa permissão, não mais do que o juiz não consulta o gosto do condenado para enviá-lo à prisão. Cada um tem a possibilidade de a ela não retornar, em se melhorando bastante para merecer passar a uma esfera mais elevada. Mas, nessas esferas felizes, o egoísmo e o orgulho não são admitidos; portanto, é se despojando dessas enfermidades morais que é necessário trabalhar, se se quer subir de grau.

Sabe-se que, em certos países, os cretinos, longe de  serem um objeto de desprezo, são cercados de cuidados benevolentes. Esse sentimento não tenderia a uma intuição do verdadeiro estado desses infortunados, tanto mais dignos de considerações quanto seu Espírito, que compreende a sua situação, deve sofrer por se ver o resto da sociedade?

Ali se considera como um favor, e uma bênção, ter um desses seres numa família. Isso é superstição? É possível, porque entre os ignorantes, a superstição se mistura às idéias mais santas das quais não se dão conta; em todos os casos, para os pais, é uma ocasião de exercer uma caridade tanto mais meritória quanto são geralmente pobres, e é para eles uma carga sem compensação material. Há mais mérito em cercar de cuidados afetuosos uma criança desfavorecida, que aquela cujas qualidades oferecem uma compensação. Ora, a caridade do coração, sendo uma das virtudes mais agradáveis a Deus, atrai sempre a sua bênção sobre aqueles que a praticam. Este sentimento inato, naquelas pessoas, equivale