O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO VIII 1642

está morta; eu a procuro, chamo-a inutilmente. Que vazio terrível a sua morte deixou-me sobre a Terra! Em morrendo, dizia-me que, sem dúvida, encontrá-la-ia; mas nada; sempre o isolamento ao meu redor; ninguém me dirige uma palavra de consolo e de esperança. Adeus; vou procurar a minha criança.

O guia do médium. Este homem não era nem ateu nem materialista; mas era daqueles que crêem vagamente, sem se preocupar com Deus nem com o futuro, absorvidos que estão pelos interesses da Terra. Profundamente egoísta, sem dúvida, teria tudo sacrificado para salvar a sua filha, mas teria sacrificado, sem escrúpulo, todos os interesses de outrem em seu proveito pessoal. Fora sua filha, não se prendia a ninguém. Disso Deus o puniu, como o sabeis; tirou-lhe a única consolação sobre a Terra, e como não se arrependeu, foi-lhe igualmente arrancada no mundo dos Espíritos. Ele não se interessou por ninguém sobre a Terra, e ninguém se interessa por ele aqui; está só, abandonado: aí está a sua punição. Entretanto, sua filha está junto dele, mas não a vê; se a visse, não seria punido. Que faz ele? Dirige-se a Deus? Arrepende-se? Não; murmura sempre; blasfema mesmo; faz, em uma palavra, como fazia sobre a Terra. Ajudai-o, pela prece e pelos conselhos, a sair dessa cegueira.

JOSEPH MAITRE, cego.

Joseph Maitre pertencia à classe  média  da  sociedade; gozava de um modesto bem-estar que punha-o ao abrigo da necessidade. Seus pais deram-lhe uma boa educação, e destinaram-no à indústria, mas aos vinte anos tornou-se cego. Morreu em 1845, em torno do qüinquagésimo ano. Uma segunda enfermidade veio atingi-lo; mais ou menos dez anos antes de sua morte, tornou-se completamente surdo, de sorte que as suas relações com os vivos não podiam ocorrer senão pelo toque. Não mais ver já era bem penoso, mas não mais ouvir era um cruel suplício para aquele que, tendo gozado de todas as suas faculdades, deveria melhor ainda sentir os efeitos dessa dupla privação. Que pudera merecer-lhe essa triste sorte? Não fora a sua última existência, porque a sua conduta sempre foi exemplar; era bom filho, de um caráter doce e benevolente, e quando se viu, por acréscimo,