O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO VIII 1644

uma cura impossível, resolvi dar-lhe fim mais cedo, e me suicidei.

No meu despertar, ai de mim! Estava mergulhado nas mesmas trevas, em que estive durante a vida. Entretanto, não tardei a reconhecer que não mais pertencia ao mundo corpóreo, mas era um Espírito cego. A vida de além-túmulo era, pois, uma realidade! Em vão tentei me furtar, para mergulhar no nada: eu me chocava com o vazio. Se essa vida deveria ser eterna, como ouvira dizer, estaria, pois, durante a eternidade nessa situação? Esse pensamento era terrível. Eu não sofria nada, mas dizer-vos os tormentos e as angústias de meu espírito é coisa impossível. Quanto tempo isso durou? Ignoro-o; mas quanto esse tempo me pareceu longo!

Exausto, estafado, fiz, enfim, um retorno sobre mim mesmo; compreendi que uma força superior caía sobre mim; disse a mim que se essa força podia oprimir-me, poderia também aliviar-me, e implorei a sua piedade. À medida que eu pedia, e que o meu fervor aumentava, alguma coisa dizia-me que essa cruel posição teria um termo. Enfim, a luz se fez; o meu arrebatamento foi extremo, quando entrevi as claridades celestes e distingui os Espíritos que me cercavam, sorrindo com benevolência, e aqueles que flutuavam, radiosos, no espaço. Quis seguir as suas pegadas, mas uma força invisível reteve-me. Então, em deles disse-me: "Deus, que desconhecestes, teve conta de teu retorno a ele, e permitiu-nos dar-te a luz, mas tu não cedestes senão com o constrangimento e a lassidão. Se queres, doravante, participar da felicidade que aqui se goza, é necessário provar a sinceridade de teu arrependimento, e de teus bons sentimentos, em recomeçando a tua prova terrestre, em condições onde estarás exposto a cair nas mesmas faltas, porque essa nova prova será ainda mais rude do que a primeira." Aceitei prontamente, prometendo-me muito não mais falir.

Portanto, retornei sobre a Terra na existência que conheceis. Não tive dificuldade em ser bom, porque não era mau por natureza; revoltara-me contra Deus, e Deus puniu-me. Para aí retornei com a fé inata; foi por isso que não murmurei mais contra ele e aceitei a minha dupla enfermidade com resignação e como uma expiação que deveria ter a sua fonte na soberana justiça. O isolamento em que me encontrei nos últimos anos, nada tinha de desesperante, porque eu tinha fé no futuro e na misericórdia de Deus; ele me foi muito