A GÊNESE - CAPÍTULO PRIMEIRO 1674

torturas; as que dele fazem um Deus parcial e ciumento são intolerantes; são mais ou menos meticulosas na forma, segundo o crêem mais ou menos corrompido pelas fraquezas e mesquinharias humanas.

25. – Toda a doutrina do Cristo está fundada sobre o caráter que ele atribui à Divindade. Com um Deus imparcial, soberanamente justo, bom e misericordioso, pôde fazer do amor de Deus e da caridade para com o próximo a condição expressa de salvação, e dizer: Amai a Deus sobre todas as coisas, e ao vosso próximo como a vós mesmos; aí está toda a lei e todos os profetas, e não há outra. Sobre esta crença somente, pôde estabelecer o princípio da igualdade dos homens diante de Deus, e da fraternidade universal. Mas era possível amar esse Deus de Moisés? Não; não se poderia senão temê-lo.

Esta revelação dos verdadeiros atributos da Divindade,

junto à imortalidade da alma e da vida futura, modificou profundamente as relações mútuas dos homens, lhes impôs novas obrigações, fê-los encarar a vida presente sob uma outra luz; devera, por isso mesmo, reagir sobre os costumes e as relações sociais. Incontestavelmente, pelas suas conseqüências, é esse o ponto capital da revelação do Cristo, e do qual não se tem compreendido bastante a importância; é lamentável dizê-lo, é também o ponto do qual se está mais afastado, o que mais se tem ignorado na interpretação de seus ensinos.

26. – Entretanto, o Cristo acrescentou: "Muitas das coisas que vos digo, não podeis ainda compreendê-las, e tenho, para vos dizer, muitas outras que não compreenderíeis; por isso vos falo por parábolas; mais tarde porém, vos enviarei o Consolador, o Espírito de Verdade, que restabelecerá todas as coisas e vo-las explicará todas." (João, cap. XIV; XVI; Mat. cap. XVII).

Se o Cristo não disse tudo o que ele teria podido dizer, foi porque acreditou dever deixar certas verdades na sombra, até que os homens estivessem no estado de compreendê-las. Intencionalmente, o seu ensinamento era, pois, incompleto, uma vez que anunciava a vinda daquele que deveria completá-lo; previa, pois, que se equivocariam com as suas palavras, que seriam desviados dos seus ensinamentos; em uma palavra, que se desfaria o que ele fez, uma vez