A GÊNESE - CAPÍTULO PRIMEIRO 1687

centro foi formado por si mesmo, pela força das coisas, e sem propósito premeditado. (1)

53. – Desse estado de coisas, resultou uma dupla corrente de idéias: uma indo das extremidades para o centro, as outras retornando do centro para a periferia. Foi assim que a Doutrina prontamente marchou para a unidade, malgrado a diversidade das fontes de onde ela emanou; que os sistemas divergentes tombaram, pouco a pouco, pelo fato do seu isolamento, diante da ascendência da opinião da maioria, por falta de nela encontrar ecos simpáticos. Uma comunhão de pensamentos foi, então, estabelecida entre os diferentes centros parciais; falando a mesma língua espiritual, eles se compreendem e simpatizam de uma extremidade à outra do mundo.

Os Espíritas se acharam mais fortes e lutaram com mais coragem, marcharam com passo mais seguro, quando não se viram mais isolados, quando sentiram um ponto de apoio, um laço que os unia à grande família; os fenômenos dos quais eram testemunhas não lhes pareciam mais estranhos, anormais, contraditórios, quando puderam ligá-los às leis gerais de


(1) O Livro dos Espíritos, a primeira obra que fez o Espiritismo entrar no caminho filosófico, pela dedução das conseqüências morais dos fatos, que abordou todas as partes da Doutrina, tocando as mais importantes questões que ela levanta, foi, desde a sua aparição, o ponto de reunião para o qual, espontaneamente, convergiam os trabalhos individuais. É notório que da publicação desse livro data a era do Espiritismo filosófico, estacionado, até aí, no domínio das experiências de curiosidade. Se esse livro conquistou a simpatia da maioria, foi porque era a expressão do sentimento dessa mesma maioria, e respondida às suas aspirações; foi também porque cada um nele encontrou a confirmação e uma explicação racional naquilo que obtinha em particular. Se estivesse em desacordo com o ensinamento geral dos Espíritos, não haveria tido nenhum crédito, e cairia prontamente no esquecimento. Ora, a quem se reuniu? Não foi ao homem, que nada é por si mesmo, agente que morre e desaparece, mas à idéia, que não perece quando emana de uma força superior à do homem.

Essa concentração espontânea de forças esparsas deu lugar a uma correspondência imensa, monumento único do mundo, quadro vivo da verdadeira história do Espiritismo moderno, onde se refletem, ao mesmo tempo, os trabalhos parciais, os sentimentos múltiplos que fizeram nascer a Doutrina, os resultados morais, os devotamentos e os desfalecimentos; arquivos preciosos para a posteridade, que poderá julgar os homens e as coisas sobre peças autênticas. Em presença desses testemunhos irrecusáveis, em que se tornarão, na continuidade, todas as falsas alegações, as difamações da inveja e do ciúme?