A GÊNESE - CAPÍTULO TERCEIRO 1713

do outro. Aí, onde o bem não existe, existe forçosamente o mal; não fazer o mal, já é o começo do bem. Deus não quer senão o bem; só do homem vem o mal. Se houvesse, na criação, um ser predisposto ao mal, nada poderia evitá-lo; mas o homem, tendo a causa do mal em SI MESMO, e tendo, ao mesmo tempo, seu livre arbítrio e, por guia, as leis divinas, evitá-lo-ia quando quisesse.

Tomemos um fato vulgar por comparação. Um proprietário sabe que, na extremidade do seu campo, há um lugar perigoso, onde poderia perecer ou se ferir aquele que ali se aventurasse. O que faz, para prevenir os acidentes? Coloca, perto do local, um aviso tornando proibido ir mais longe, por causa do perigo. Eis a lei; ela é sábia e previdente. Se, malgrado isso, um imprudente não o tem em conta, e passa além, se lhe ocorre algo mal, a quem pode imputar senão a si mesmo?

Assim  ocorre com todo o mal; o homem o evitaria, se observasse as leis divinas. Deus, por exemplo, colocou um limite à satisfação das necessidades; o homem é advertido pela saciedade; se ultrapassa esse limite, o faz voluntariamente. As doenças, as enfermidades, a morte, que lhe podem ser conseqüentes, são, pois, o fato da sua imprevidência, e não de Deus.

9. – O mal, sendo o resultado das imperfeições do homem, e o homem, sendo criado por Deus, Deus, dir-se-á, se não criou o mal, pelo menos a causa do mal; se houvesse feito o homem perfeito, o mal não existiria.

Se o homem tivesse sido criado perfeito, seria levado, fatalmente, ao bem: ora, em virtude o seu livre arbítrio, ele não é levado, fatalmente, nem ao bem nem ao mal. Deus quis que fosse submetido à lei do progresso, e que, esse progresso fosse o fruto do seu próprio trabalho, a fim de que, dele, tivesse o mérito, do mesmo modo que carrega a responsabilidade  do mal que é o fato da sua vontade. A questão, pois, é saber qual é, no homem, a fonte da propensão para o mal (1).


(1) O erro consiste em pretender que a alma tenha saído perfeita das mãos do Criador, ao passo que este, ao contrário, quis que a perfeição fosse o resultado da depuração gradual do Espírito e sua própria obra. Deus quis que a alma, em virtude do seu livre arbítrio, pudesse optar entre o bem o mal, e que ela chegasse aos seus fins últimos por uma vida militante e resistindo ao mal. Se tivesse feito  a  alma  perfeita, como ele, e que, saindo das suas mãos, a tivesse associado à sua beatitude eterna, não a teria feito à sua imagem, mas semelhante a ele mesmo. (Bonnamy, juiz de instrução: A Razão do Espiritismo cap. VI).