A GÊNESE - CAPÍTULO TERCEIRO 1714

10. – Se se estudam todas as paixões, e mesmo todos os vícios,  vê-se que têm seu princípio no instinto de conservação. Este instinto está, com toda a sua força, nos animais e nos seres primitivos que mais se aproximam da animalidade; aí só ele domina, porque, neles, não há ainda, por contrapeso, o senso moral; o ser ainda não nasceu para a vida intelectual. O instinto se enfraquece, ao contrário, à medida que a inteligência se desenvolve, porque esta domina a matéria.

O destino do homem é a vida espiritual; mas, nas primeiras fases   da  sua existência corpórea, não há senão necessidades materiais a satisfazer, e, para esse fim, o exercício das paixões é uma necessidade para a conservação  da  espécie e dos indivíduos, materialmente  falando. Mas, saído desse período, há outras necessidades, necessidades primeiro semi-morais e semi-materiais, depois, exclusivamente morais. É, então, quando o Espírito domina a   matéria; se lhe sacode o jugo, avança no caminho providencial, e se aproxima da sua destinação final. Se, ao contrário, se deixa dominar por ela, se atrasa assimilando-se ao animal. Nessa situação, o que, outrora, era um bem, porque era uma necessidade da sua natureza, torna-se um mal, não somente por não ser mais uma necessidade, mas porque isso se torna nocivo à espiritualização do ser. Tal o que é qualidade na criança e se torna defeito no adulto. O mal, assim, é relativo, e a responsabilidade proporcionada ao grau de adiantamento.

Todas as paixões têm, pois, a sua utilidade providencial; sem isso, Deus teria feito algo inútil e nocivo. É o abuso que constitui o mal, e o homem abusa em virtude do seu livre arbítrio. Mais tarde, esclarecido pelo seu próprio interesse, escolherá, livremente, entre o bem o mal.

O INSTINTO E A INTELIGÊNCIA

11. – Que diferença há entre o instinto e a inteligência? Onde  termina um e onde começa a outra? O instinto é uma inteligência rudimentar, ou é uma faculdade distinta, um atributo exclusivo da matéria?

O instinto é a força oculta que solicita os seres orgânicos a atos espontâneos e involuntários, tendo em vista a  sua conservação. No atos instintivos, não há nem reflexão,  nem combinação e nem premeditação. É assim   que a planta