A GÊNESE - CAPÍTULO TERCEIRO 1722

o senso moral não existe, ou a inteligência, ainda, não substituiu o instinto, a luta não poderia ter por móvel senão a satisfação de uma necessidade material; ora, uma das mais imperiosas necessidades é a da nutrição; lutam, pois, unicamente para viver, quer dizer, para agarrar ou garantir uma presa, por que não poderiam ser estimulados por um motivo mais elevado. É nesse primeiro período que a alma se elabora e ensaia para a vida.

No homem, há um período de transição no qual ele se distingue com dificuldade do animal; nas primeiras idades, o instinto animal domina, e a luta tem, ainda, por motivo a satisfação das necessidades materiais; mais tarde, o instinto animal e o sentimento moral se contrabalançam; o homem, então, luta, não mais para se nutrir, mas para satisfazer sua ambição, seu orgulho, a necessidade de dominar; para isso, lhe é, ainda, preciso destruir. Mas, à medida que o senso moral predomina, a sensibilidade se desenvolve, a necessidade da destruição diminui; acaba mesmo por se apagar e se tornar odiosa: então, o homem tem horror ao sangue.

Entretanto, a luta é sempre necessária ao desenvolvimento do Espírito, porque, mesmo chegado a esse ponto que nos parece culminante, está longe de ser perfeito; não é senão ao preço da sua atividade que adquire conhecimentos, experiência, e que se despoja dos últimos vestígios da animalidade; mas, desde esse momento, a luta, que era sangrenta e brutal, torna-se puramente intelectual; o homem luta contra as dificuldades, e não mais contra os seus semelhantes (1).


(1) Sem nada prejulgar sobre as conseqüências que se poderiam tirar desse princípio, quisemos somente demonstrar, por esta explicação, que a destruição dos seres vivos, uns pelos outros, não infirma, em nada, a sabedoria divina, e que tudo se encadeia nas leis da Natureza. Esse encadeamento é necessariamente rompido,  se  se faz abstração do princípio espiritual; é por isso  que tantas questões  são insolúveis, se não se considera senão a matéria.

As doutrinas materialistas levam, nelas, o princípio da sua destruição; têm, contra elas, não somente o antagonismo com as aspirações da universalidade dos homens, suas conseqüências morais que as farão sobressair-se como dissolventes da sociedade, mas, ainda, a necessidade que se experimenta de tomar conhecimento do que nasce do progresso. O desenvolvimento intelectual leva o homem à procura das causas; ora, por pouco que refletisse, não tardaria em reconhecer a impotência do Materialismo para tudo explicar. Como doutrinas que não satisfazem nem o coração, nem a razão, nem a inteligência, que deixam problemáticas as questões mais vitais, poderiam prevalecer? O progresso das idéias matará o Materialismo, como matou o fanatismo.