A GÊNESE - CAPÍTULO QUARTO 1727

tão  impossível quanto o  impedir a Terra de girar. As religiões, quaisquer que sejam, nunca ganharam nada por sustentarem erros manifestos. A missão da ciência é descobrir as leis da Natureza; ora, como essas leis são obras de Deus, não podem ser contrárias às religiões fundadas sobre a verdade. Lançar anátema ao progresso por atentatório à religião, é lançá-lo à própria obra de Deus; além disso, seria esforço inútil, porque todos os anátemas do mundo não impedirão à ciência de caminhar, e à verdade de se fazer luz. Se a religião recusa caminhar com a ciência, a ciência avança sozinha.

10. – Apenas as religiões estacionárias podem temer as descobertas da ciência; essas descobertas não são funestas senão àquelas que se deixam ultrapassar pelas idéias progressivas, imobilizando-se no absolutismo das suas crenças; em geral, fazem uma idéia tão mesquinha da Divindade que não compreendem que assimilar as leis da Natureza reveladas pela ciência, é glorificar a Deus por suas obras; mas, em sua cegueira, nisso preferem fazer homenagem ao Espírito do mal. Uma religião que não estivesse, em nenhum ponto, em contradição com as leis da Natureza, nada teria a temer do progresso e seria uma religião invulnerável.

11. – A Gênese compreende duas partes: a história da formação do mundo material, e a da Humanidade, considerada em seu duplo princípio, corpóreo e espiritual. A ciência está limitada na pesquisa das leis que regem a matéria; no próprio homem, ela não estuda senão o envoltório carnal. Sob esse aspecto, chegou a constatar, com uma precisão incontestável, as partes principais do mecanismo do Universo, e do organismo humano. Sobre esse ponto capital, pode, portanto, completar a Gênese de Moisés e retificar-lhe as partes defeituosas.

Mas a história do homem, considerado como ser espiritual, se liga a uma ordem especial de idéias que não é do domínio da ciência propriamente dita, e da qual esta, por este motivo, não fez objeto de suas investigações. A filosofia, que tem, mais particularmente, esse gênero de estudo em suas atribuições não formulou, sobre esse ponto, senão sistemas contraditórios, desde a espiritualidade pura até a negação  do princípio espiritual, e mesmo de Deus, sem outras bases do que as idéias pessoais dos seus autores; deixou, pois, a questão indecisa, por falta de um controle suficiente.