O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO II - CAP. VI - VIDA ESPÍRITA 173

do que dos pés. É preciso, de resto, não confundir as sensações do perispírito, que se tornou independente, com as do corpo; não podemos tomar estas últimas como análogas, mas apenas como termo de comparação. Liberto do corpo, o Espírito pode sofrer, mas esse sofrimento não é corporal, embora não seja exclusivamente moral como o remorso, uma vez que ele se queixa de frio e de calor. Ele não sofre mais no inverno que no verão e o temos visto passar através das chamas sem nada experimentar de penoso; a temperatura não lhes causa, pois, nenhuma impressão. A dor que ele sente não é propriamente uma dor física, mas um vago sentimento íntimo que o próprio Espírito nem sempre entende, precisamente porque a dor não está localizada e não é produzida por agentes externos: é mais uma lembrança que uma realidade, porém, uma recordação também penosa. Há, algumas vezes, entretanto, mais que uma lembrança, como iremos ver.

A experiência nos ensina que no momento da morte o perispírito se liberta mais ou menos lentamente do corpo. Durante os primeiros instantes, o Espírito não entende sua situação: não se crê morto porque se sente vivo; vê seu corpo de um lado, sabe que é seu, mas não entende porque está separado dele. Este estado perdura enquanto existe alguma ligação entre o corpo e o perispírito. Um suicida nos disse: Não, não estou morto – e ajuntou – entretanto, sinto  os vermes que me roem. Ora, seguramente, os vermes não roíam o perispírito, e muito menos o Espírito; roíam apenas o corpo. Entretanto, como a separação do corpo e do perispírito não tinha se completado, resultava uma espécie de repercussão moral que lhe transmitia a sensação do que se passava no corpo. Repercussão pode não ser talvez a palavra certa, pois, faria supor um efeito muito material; era antes a visão do que se passava no corpo, ligado ainda ao seu perispírito, que produzia nele uma ilusão, a qual tomava por uma realidade. Assim, não era uma lembrança, pois que, durante sua vida não havia sido roído pelos vermes; era o sentimento de um fato atual. Vê-se, por aí, as deduções que se podem tirar dos fatos, quando são observados atentamente. Durante a vida, o corpo recebe as impressões exteriores e as transmite ao Espírito por intermédio do perispírito que constitui, provavelmente, o que se chama de fluido nervoso. Morto o corpo, ele não sente mais nada, visto que não há mais nele Espírito, nem perispírito. O perispírito, desprendido do corpo, experimenta  sensação,  mas  como esta não lhe chega mais