A GÊNESE - CAPÍTULO QUINTO 1732

lar como uma mó de moinho, se estendendo, a perder de vista, na direção do horizonte; daí a expressão ainda usada: Ir   ao  fim do mundo. Seus limites, sua espessura, seu interior,  sua  face  inferior, o que havia abaixo, eram o desconhecido (1).

3. – O céu, aparecendo sob uma forma côncava, era, segundo a crença vulgar, uma abóbada real, cujas bordas inferiores repousavam sobre a Terra, e lhe marcavam os limites; vasta cúpula da qual o ar enchia toda a capacidade. Sem nenhuma noção do infinito e do espaço, incapazes mesmo de concebê-los, os homens figuravam essa abóboda formada de matéria sólida; daí o nome de firmamento, que sobreviveu  à  crença, e que significa firme, resistente (do latim firmamentum, derivado de firmus e do grego herma, hermatos, firme, sustentáculo, suporte, ponto de apoio).

4. – As estrelas, das quais não podia supor a natureza, eram simples pontos luminosos, mais ou menos gordos, pregados na abóboda iguais a lâmpadas suspensas, dispostos sobre uma única superfície e, por conseguinte, todos à mesma distância da Terra, do mesmo modo que são representados no interior de certas cúpulas, pintadas de azulado para figurar o azul dos céus.

Se bem que, hoje, as idéias sejam outras, o uso de antigas expressões se conservou; diz-se, ainda, por comparação: a abóbada estrelada; sob a calota do céu.

5. – A formação das nuvens pela evaporação das águas


(1)"A mitologia indu ensinava que o astro do dia se despojava, à tarde, da sua luz, e atravessava o céu, durante a noite, com uma face escura. A mitologia grega representava o carro de Apolo puxado por quatro cavalos. Anaximandro, de Mileto, sustentava, de acordo com Plutarco, que o Sol era uma carroça, cheia de um fogo muito vivo, que escaparia por uma abertura circular. Epicuro, segundo uns, teria emitido a opinião de que o Sol se acendia de manhã e se apagava, à tarde, nas águas do Oceano; outros pensam que ele fazia, desse astro, uma pedra pome, aquecida ao estado de incandescência. Anaxágoras o considerava um ferro quente do tamanho do Peloponeso. Singular observação! Os Antigos eram tão invencivelmente levados a considerar o tamanho aparente desse astro como real, que perseguiram esse filósofo temerário por ter atribuído um tal volume ao astro do dia, e foi necessária toda a autoridade de Péricles para salvá-lo de uma condenação à morte, e comutar esta para uma sentença de exílio." (Flammarion, Estudos e leituras sobre a astronomia pág. 6.)

Quando se vêem tais idéias manifestadas no quinto século antes da era cristã, ao tempo de maior florescimento da Grécia, não se pode admirar das que fizeram os homens das primeiras idades sobre o sistema do mundo.