O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO II - CAP. VI - VIDA ESPÍRITA 175

impressão diferente, o que produz uma modificação na percepção. Eles ouvem o som da nossa voz, entretanto, nos compreendem sem o auxílio da palavra, apenas pela transmissão do pensamento. Isso vem em apoio ao que dissemos: essa penetração é tanto mais fácil quanto mais o Espírito está desmaterializado. Quanto à visão, ela independe da nossa luz. A faculdade de ver é um atributo essencial da nossa alma; para ela não há obscuridade, e apresenta-se mais extensa, mais penetrante para os que estão mais purificados. A alma, ou o Espírito, tem pois, em si mesmo, a faculdade de todas as percepções; na vida corpórea elas são limitadas pela grosseria de seus órgãos, contudo, na vida extra-corpórea o são cada vez menos à medida que se torna menos compacto o envoltório semi-material.

Esse envoltório, tirado do meio ambiente, varia de acordo com a natureza dos mundos. Passando de um mundo a outro, os Espíritos trocam de envoltório como trocamos de roupa ao passarmos do inverno para o verão, ou do pólo para o equador. Os Espíritos mais elevados, quando nos vêm visitar, revestem-se do perispírito terrestre e, então, suas percepções operam como nos Espíritos vulgares; mas todos, inferiores como superiores, não ouvem e não sentem mais do que aquilo que querem ouvir ou sentir. Sem possuírem órgãos sensitivos, podem tornar, à vontade, ativas ou nulas suas percepções; só uma coisa são forçados a ouvir: os conselhos dos bons Espíritos. A visão é sempre ativa, mas eles podem, reciprocamente, tornarem-se invisíveis uns aos outros. Segundo a categoria que ocupem, podem ocultar-se dos que lhes são inferiores, mas não o podem dos que lhes são superiores. Nos primeiros momentos que se seguem à morte, a visão do Espírito é sempre perturbada e confusa e se aclara à medida que se desprende e pode adquirir a mesma clareza que durante a vida, independentemente da sua penetração através dos corpos que nos são opacos. Quanto à sua extensão pelo espaço infinito, no futuro e no passado, depende do grau de pureza e elevação do Espírito.

Toda esta teoria, dir-se-á, não é nada tranqüilizadora. Pensávamos que, uma vez desembaraçados do nosso envoltório grosseiro, instrumento das nossas dores, não sofreríamos mais e nos informais que ainda sofreremos e, seja de uma maneira ou de outra, é sempre sofrer. Ah! sim, podemos ainda sofrer muito e por muito tempo, mas, podemos tam-