O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO II - CAP. VI - VIDA ESPÍRITA 180

que lhes parecerá eterno. Deus poderá deixá-los nesse estado até que compreendam suas faltas e peçam, por si mesmos, os meios de resgatá-las em provas vantajosas.

266 – Não parece natural que os Espíritos escolham as provas menos penosas?

– Para vós, sim; para o Espírito, não. Quando se liberta da matéria, a ilusão desaparece e ele pensa de outra maneira.

O homem sobre a Terra e colocado sob a influência das idéias carnais, não vê em suas provas senão o lado penoso; é por isso que lhe parece natural escolher aquelas que,  do seu ponto de vista, podem coexistir com os prazeres materiais. Na vida espiritual, contudo, ele compara esses prazeres fugitivos e grosseiros com a felicidade inalterável que entrevê e, então, que lhe importam alguns sofrimentos passageiros? O Espírito pode, pois, escolher as provas mais rudes e, por conseguinte, a existência mais penosa na esperança de alcançar mais depressa um estado melhor, como o doente escolhe, freqüentemente, o remédio mais desagradável para se curar mais rapidamente. O que quer ver seu nome ligado ao descobrimento de um país desconhecido não escolhe um caminho florido; sabe os perigos que corre, mas sabe também a glória que o espera, se for bem sucedido.

A doutrina da liberdade na escolha de nossas existências e das provas que devemos suportar deixa de parecer extraordinária se se considerar que os Espíritos desprendidos da matéria apreciam as coisas de maneira diferente da nossa; entrevêem o fim, bem mais sério para eles que os prazeres fugidios do mundo. Depois de cada existência, avaliam o passo que deram e compreendem o que lhes falta ainda em pureza para alcançarem aquele fim. Eis porque eles se submetem voluntariamente a todas as vicissitudes da vida corporal pedindo, eles mesmos, as provas que lhes permitam chegar mais prontamente. Não há, pois, motivo de espanto no fato de o Espírito não dar preferência a uma existência mais suave. Essa vida, isenta de amargura, não pode gozá-la em seu estado de imperfeição; ele a entrevê e é para alncançá-la que procura se melhorar.

Não temos, aliás, todos os dias, sob nossos olhos, exemplo de escolhas semelhantes? Que faz o homem que trabalha uma parte da sua vida, sem trégua nem descanso, para reunir haveres que lhe garantam o bem-estar, senão uma tarefa que se impôs tendo em vista um futuro melhor?

O militar que sofre por uma missão perigosa, o viajante que não enfrenta menores perigos, no interesse da Ciência ou da sua fortuna, não se submetem a provas voluntárias que devem lhes proporcionar honra e proveito, se forem bem sucedidos? A que o homem não se submete e não se expõe pelo seu interesse ou pela sua glória? Todos os concursos não  são  também  provas voluntárias