A GÊNESE - CAPÍTULO NONO 1809

geração em geração, à medida que o mar avança, e eles avançam sobre as terras de onde o mar se retirou. É a esta causa, mais que provável, que alguns sábios atribuem a retração do mar sobre certas costas e a sua invasão sobre outras.

10. – O deslocamento lento, gradual e periódico do mar é um fato adquirido pela experiência, e atestado por numerosos exemplos sobre todos os pontos do globo. Tem por conseqüência   a   conservação das forças produtivas da Terra. Essa longa imersão é um tempo de repouso durante o qual as terras submersas recuperam os princípios vitais esgotados por uma produção não menos longa. Os imensos depósitos de matérias orgânicas, formadas pela permanência das águas durante séculos e séculos, são adubos naturais, periodicamente renovados, e as gerações se sucedem sem se aperceberem destas mudanças (1).


(1) Entre os fatos mais recentes que provam o deslocamento do mar, podem citar-se os seguintes:

No golfo de Gasconha, entre o velho Soulac e a torre de Cordouan, quando o mar está calmo, descobre-se no fundo da água lanços de muralha: são os restos da antiga e grande cidade de Naviomagus, invadida pelas ondas em 580. O rochedo de Cordouan, que estava então ligado à costa, está agora a 12 quilômetros.

No mar da Mancha, sobre a costa do Havre, o mar ganha, cada dia, terreno e mina as fragas de Sainte-Adresse, que desmoronam pouco a pouco. A dois quilômetros da costa, entre Sainte-Adresse e o cabo da Hève, existe o banco de Eclat, outrora a descoberto e reunido à terra firme. Antigos documentos constatam que sobre esse sítio, onde hoje se navega, havia a aldeia de Saint-Denis-chef-de-Caux. O mar, tendo invadido o terreno no século quatorze, a igreja foi engolida em 1378. Pretende-se que se lhe vêem os restos, no fundo das águas, num tempo calmo.

Sobre quase toda a extensão do litoral da Holanda, o mar não é retido senão à força de diques, que se rompem de tempos em tempos. O antigo lago Flevo, reunido ao mar em 1225, forma hoje o golfo de Zuyderzée. Essa irrupção do oceano engoliu várias aldeias.

Segundo isso, o território de Paris e da França será um dia de novo ocupado pelo mar, como já o foi várias vezes, assim como provam as observações geológicas. As partes montanhosas formarão as ilhas, como o são agora Jersey, Guernesey e a Inglaterra, outrora contíguos ao continente.

Navegar-se-á acima das regiões que se percorrem hoje em caminhos de ferro; os navios abordarão em Montmartre, no monte Valérien, nos outeiros de Saint-Cloud e de Meudon; as madeiras e as florestas, onde se passeia, serão sepultadas sob as águas, recobertas de lodo, e povoadas de peixes em lugar de pássaros.

O dilúvio bíblico não pôde ter essa causa, uma vez que a invasão das águas foi súbita e a sua permanência de curta duração, ao passo que, de outra maneira, fora de milhares de anos, e duraria ainda, sem que os homens disso se apercebessem.