O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO II - CAP. VI - VIDA ESPÍRITA 181

às quais os homens se submetem para se elevarem na carreira que escolheram? Não se chega a uma posição social de destaque nas ciências, nas artes, na indústria, senão passando por uma série de posições inferiores que são outras tantas provas. A vida humana é uma cópia da vida espiritual onde encontramos, em ponto pequeno, todas as mesmas peripécias. Se pois, nesta vida escolhemos as provas mais rudes para alcançarmos um objetivo mais elevado, por que o Espírito, que vê mais longe que o corpo e para o qual a vida do corpo não é mais que um incidente fugidio, não escolheria uma existência penosa e laboriosa,  se  ela  deve conduzi-lo a uma felicidade eterna? Aqueles que dizem que, se o homem tem a escolha da sua existência, pediriam para ser  príncipes ou milionários, são como míopes que só vêem o que tocam, ou como crianças gulosas à quais quando perguntamos a profissão que preferem, respondem: pasteleiros ou confeiteiros.

Assim é o viajante que, no fundo do vale obscurecido pelo nevoeiro não vê a extensão, nem os pontos extremos do seu caminho. Chegado ao cume da montanha, divisa ele o caminho que percorreu e o que resta a percorrer, vê o seu fim e os obstáculos que tem ainda a transpor e pode, então, planejar com mais segurança os meios de o atingir. O Espírito encarnado está como o viajor na base da montanha: desembaraçado dos laços físicos, ele domina o cenário como aquele que está no cume da montanha. Para o viajante, o objetivo é o repouso depois da fadiga, para o Espírito, porém, é a felicidade suprema após as tribulações e as provas.

Todos os Espíritos dizem que, no estado errante, buscam, estudam, observam para fazerem sua escolha. Não temos um exemplo desse fato na vida corporal? Não buscamos, freqüentemente, durante anos, a carreira sobre a qual fixamos livremente nossa escolha, porque a cremos a mais apropriada para os objetivos do nosso caminho? Se fracassamos numa, procuramos outra. Cada carreira que abraçamos é uma fase, um período da vida. Não empregamos cada dia para planejar o que faremos no dia seguinte?

Ora, que são as diferentes existências corporais para o Espírito senão fases, períodos e dias de sua vida espírita que é, como o sabemos, sua vida normal, uma vez que a vida  corpórea não é mais que transitória e passageira?

267 – Poderá o Espírito fazer sua escolha durante a vida corporal?

– Seu desejo pode ter influência, dependendo da intenção; como Espírito, porém, muitas vezes vê as coisas de maneira diferente, e é nesse estado que faz sua escolha. Mas, ainda uma vez, pode fazê-la na sua vida material, porque o Espírito tem sempre momentos nos quais fica independente da matéria que habita.

– Muitas pessoas desejam grandezas e riquezas; não é, certamente, como expiação, nem como prova?