O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO II - CAP. VI - VIDA ESPÍRITA 183

se a derramar sangue ( * ). Se não vêem mais alto é porque a inferioridade moral não lhes permite a compreensão de um progresso mais completo. O Espírito não pode avançar senão gradualmente; não pode transpor, de um salto, a distância que separa a barbárie da civilização, e é nesse fato que vemos uma das necessidades da reencarnação para que corresponda verdadeiramente à justiça de Deus. De outra forma, em que se tornariam esses milhões de seres que morrem cada dia no último estado de degradação, se não tivessem os meios de alcançar a superioridade? Por que Deus os deserdaria dos favores concedidos aos outros homens?

272 – Os Espíritos que procedem de um mundo inferior à Terra, ou de um povo muito atrasado, como os canibais, por exemplo, poderiam nascer entre os povos civilizados?

– Sim, há os que se desencaminham querendo subir muito mais alto; mas, nesse caso, eles ficam desajustados, entre vós, porque têm costumes e instintos que não se afinam com os vossos.

Esses seres nos dão o triste espetáculo da ferocidade dentro da civilização. O retorno para junto dos canibais não será para eles uma queda, pois não farão mais que retomar o seu lugar, talvez com maior proveito.

273 – Um homem pertencente a uma raça civilizada, por expiação, poderia encarnar numa raça selvagem?

– Sim, mas isso depende do gênero da expiação; um senhor que foi duro para os seus escravos poderá vir a ser escravo, a seu turno, e sofrer os maus tratos que fez suportar. Aquele que um dia comandou pode, numa nova existência, obedecer àqueles mesmos que se curvaram à sua vontade. É uma expiação se ele abusou de seu poder e Deus a pode impor-lhe. Um bom Espírito pode, também, para ajudar-lhes o progresso, escolher uma existência influente  entre  esse povos, e então é uma missão.

RELAÇÕES DE ALÉM-TÚMULO.

274 – As diferentes ordens de Espíritos estabelecem entre elas mesmas uma hierarquia de poder? Há entre elas subordinação e autoridade?


( * ) – No original que usamos, lê-se: "... d’exercer parmi nous une profession qui les obligerait à verser le sang." Ora, "uma profissão que os obrigasse a derramar sangue" não corresponde ao ensinamento que Kardec pretendeu ministrar, posto que não representaria um progresso. Deve ter havido uma mutilação do texto original que nos permitimos reparar para completar o raciocínio. (N. do T.).