A GÊNESE - CAPÍTULO DÉCIMO-PRIMEIRO 1838

22. – Não há, pois, solução de continuidade na vida espiritual, apesar do esquecimento do passado; o Espírito é sempre ele, antes, durante a encarnação e depois dela; a encarnação não é senão uma fase especial de sua existência. Esse esquecimento não ocorre mesmo senão durante a vida exterior de relação; durante o sono, o Espírito, em parte desligado dos laços carnais, entregue à liberdade e à vida espiritual, lembra-se; sua visão espiritual não é mais tanto obscurecida pela matéria.

23. – Tomando a Humanidade em seu grau mais ínfimo da escala intelectual, entre o selvagens mais atrasados, pergunta-se se aí está o ponto de partida da alma humana.

Segundo a opinião de alguns filósofos espiritualistas, o princípio inteligente, distinto do princípio material, se individualiza, se elabora, em passando pelos diversos graus da animalidade; é aí que a alma ensaia para a vida e desenvolve as suas primeiras faculdades pelo exercício; seria, por assim dizer, o seu tempo de incubação. Chegada ao grau de desenvolvimento que comporta esse estado, ela recebe as faculdades especiais que constituem a alma humana. Haveria, assim, filiação espiritual do animal ao homem, como há filiação corpórea.

Esse sistema, fundado sobre a grande lei da unidade que preside à criação, responde, é necessário nisso convir, à justiça e à bondade do Criador; ele dá um resultado, um objetivo, um destino aos animais, que não mais são seres deserdados, mas que encontram, no futuro que lhes está reservado, uma compensação aos seus sofrimentos. O que constitui o homem espiritual, não é a sua origem, mas os atributos especiais dos quais está dotado em sua entrada na humanidade, atributos que o transformam e dele fazem um ser distinto, como o fruto saboroso é distinto da raiz amarga de onde saiu. Por ter passado pela fieira da animalidade, com isso o homem não seria menos homem; não seria mais animal como o fruto não é a raiz, como o sábio não é o feto informe pelo qual começou no mundo.

Mas esse sistema levanta numerosas questões, das quais não é oportuno discutir aqui o pró e o contra, não mais que examinar as diferentes hipóteses que se fizeram a esse respeito. Sem, pois, procurar a origem da alma, e as fieiras