A GÊNESE - CAPÍTULO DÉCIMO-SEGUNDO 1868

Adão é a personificação da Humanidade; sua falta individualiza a fraqueza do homem, em quem predominam os instintos materiais, aos quais não sabe resistir (1).

A árvore, como árvore da vida, é o emblema da vida espiritual; como árvore da ciência, é o da consciência do homem que adquire do bem e do mal para o desenvolvimento de  sua  inteligência,  e o do livre arbítrio em virtude do qual ele escolhe entre os dois; marca o ponto em que a alma do homem deixa de ser guiada somente pelos instintos, toma posse de  sua liberdade e incorre na responsabilidade de seus atos.

O fruto da árvore é o emblema do objetivo dos desejos materiais do homem; é a alegoria da cobiça e da concupiscência; resume, sob uma mesma figura, os motivos de arrastamento ao mal; comendo, é sucumbir à tentação. Ele cresce no meio do jardim das delícias para mostrar que a sedução está no próprio seio dos prazeres, e lembrar que, se o homem dá preponderância aos gozos materiais, prende-se à Terra e afasta-se de sua destinação espiritual (2).

A  morte da qual está ameaçado, se transgride a proibição  que lhe  é  feita,  é  uma  advertência  das  conseqüências inevitáveis,  físicas  e morais, que arrasta  a violação  das leis divinas, que Deus gravou em sua consciência. É  bem  evidente  que  não  se trata aqui da morte corpórea, uma vez que, depois de sua falta, Adão viveu ainda por muito tempo, mas bem da morte espiritual, dito de outro modo,  da perda dos bens que resultam do adiantamento moral, perda da qual a sua expulsão do jardim das delícias é a imagem.


(1) Está bem reconhecido hoje que a palavra hebraica haadam não é um nome próprio, mas que significa o homem em geral, a Humanidade, o que destrói todo o alicerce construído sobre a personalidade de Adão.

(2) Em nenhum texto o fruto é especializado pela maçã; esta palavra  não  se  encontra  senão nas versões infantis. A palavra do texto hebreu é  peri , que   tem  as mesmas acepções que em francês, sem especificação de espécie, e pode ser tomada no sentido material, moral, alegórico, no próprio e no figurado. Entre os Israelitas, não há interpretação obrigatória; quando  uma   palavra  tem   várias  acepções,  cada  um  a  entende  como quer, desde que a interpretação não seja contrária à gramática. A palavra peri foi  traduzida  em   latim por malum, que se diz da maçã e de toda espécie de   frutas.  É  derivada  do  grego   mélon,  particípio  do   verbo   mélo, interessar, tomar cuidado, atrair.