A GÊNESE - CAPÍTULO DÉCIMO-SEGUNDO 1869

17. – A serpente está longe de passar hoje pelo tipo da astúcia; está, pois, aqui, com relação à sua forma antes que pelo seu caráter, uma  alusão à perfídia dos maus conselhos que deslizam como a serpente, e nos quais, freqüentemente, por essa razão, não se confia mais. Aliás, se a serpente, por ter enganado a mulher, foi condenada a rastejar sobre o ventre, isso queria dizer que ela antes tinha pernas, e, então, não era mais uma serpente. Por que, pois, impor à fé ingênua e crédula das crianças, como verdades, alegorias tão evidentes, e que, em fazendo seu julgamento, se faz com que, mais tarde, olhem a Bíblia como um enredo de fábulas absurdas?

É necessário notar, por outro lado, que a palavra hebraica nâhâsch, traduzida pela palavra serpente, vem da raiz nâhâsch que significa: fazer encantamentos, adivinhar as coisas ocultas, e pode significar: encantador, adivinho. Encontra-se, com essa acepção, na Gênese, cap. XLIV, v. 5 a 15,  a  propósito  da  taça  que José fez esconder no saco de Benjamim: "A taça que furtastes é aquela na qual meu Senhor bebe, e da qual se serve para adivinhar (nâhâsch) (1). – Ignorais que não há quem me iguale na ciência de adivinhar (nâhâsch)?" – No livro dos Números, cap. XXIII, v. 23: "Não há encantamentos (nâhâsch) em Jacó, nem adivinhos em Israel." Conseqüentemente, a palavra nâhâsch   tomou também  o significado de serpente, réptil que os encantadores pretendiam encantar, ou do qual se serviam em seus encantamentos.

Não foi senão na versão dos Setenta, – que, segundo Hutcheson, corromperam o texto hebreu em muitos lugares, – escrita em grego no segundo século antes da era cristã, que a palavra nâhâsch foi traduzida por serpente. As inexatidões dessa versão, sem dúvida, prendem-se às modificações que a língua hebraica sofrera no intervalo; porque o hebreu do tempo de Moisés era então uma língua morta, que diferia do hebreu vulgar, tanto quanto o grego antigo e o árabe literário diferem do grego e do árabe modernos (2).


(1) Esse   fato   daria  a pensar que a mediunidade pelo copo d´água era conhecida   dos   Egípcios?  (Revista  Espírita  de  junho  de   1868, p. 161).

(2) A palavra nâhâsch existia antes da língua egípcia, com o significado de negro, provavelmente porque os negros tinham o dom do encantamento e da adivinhação. Foi talvez por isso também que as esfinges, de origem assíria, eram representadas com a figura de um negro.