A GÊNESE - CAPÍTULO DÉCIMO-SEGUNDO 1870

É,  pois,  provável  que Moisés entendesse, por sedutor da  mulher, o desejo indiscreto de conhecer as coisas ocultas suscitadas pelo Espírito de adivinhação, o que está de acordo com o sentido primitivo da palavra nâhâsch, adivinho; de outra parte, com estas palavras: "Deus sabia que logo que comerdes desse fruto, vossos olhos serão abertos, e sereis como deuses. – Ela viu, a mulher, que era invejável a árvore para compreender (léaskil), e ela tomou de seu fruto." Não se pode esquecer que Moisés queria proscrever, entre os Hebreus, a arte de adivinhação, em uso entre os Egípcios, assim como o prova a sua proibição de interrogar os mortos, e o Espírito de Python. (O Céu e o Inferno segundo o Espiritismo, cap. XII).

18. – A passagem onde está dito que: "O Senhor passeava pelo paraíso, depois do meio-dia, quando se levantou um vento brando," é  uma imagem ingênua e um tanto pueril que a crítica não deixou de realçar; mas nada tem que deva surpreender reportando-se à idéia que os Hebreus, dos tempos primitivos, faziam da Divindade. Para essas inteligências rudes, incapazes de conceberem abstrações, Deus devia revestir uma forma concreta, e referiam tudo à Humanidade como ao único ponto conhecido. Moisés lhes falava, pois, como a crianças, por imagens sensíveis. No caso de que se trata, era o poder soberano personificado, como os Pagãos personificavam, sob figuras alegóricas, as virtudes, os vícios e as idéias abstratas. Mais tarde, os homens despojaram a idéia da forma, como a criança, tornada adulta, procura o sentido moral nos contos com os quais a embalaram. É necessário, pois, considerar essa passagem como uma alegoria da Divindade vigiando ela mesma os objetos de sua criação. O grande rabino Wogue traduziu-a assim: "Eles ouviram a voz do Eterno Deus, percorrendo o jardim do lado de onde vem o dia."

19. – Se a falta de Adão foi literalmente o ter comido uma fruta, incontestavelmente, ela não poderia, por sua natureza quase pueril, justificar o rigor com que foi atingido. Não se poderia, não mais racionalmente, que esse seja o fato que se supõe geralmente; de outro modo Deus, considerando esse fato como um crime irremissível, condenaria a sua própria obra, uma vez que criara o homem para a propagação. Se Adão houvesse entendido nesse sen-