A GÊNESE - CAPÍTULO DÉCIMO-TERCEIRO 1883

14. – Uma vez que o Espiritismo repudia toda pretensão às coisas maravilhosas, fora dele há milagres na acepção usual da palavra?

Dizemos primeiro que, entre os fatos reputados miraculosos que se passaram antes do advento do Espiritismo,e que se passam ainda em nossos dias, a maioria, senão todos, encontram a sua explicação nas leis novas que ele veio revelar; estes fatos entram, pois, embora sob um outro nome,   na ordem dos fenômenos espíritas, e, como tais, nada têm de sobrenatural. Bem entendido que não se trata aqui senão dos fatos autênticos, e não daqueles que, sob o nome de milagres, são o produto de uma indigna charlatanice, tendo em vista explorar a credulidade; não mais que certos  fatos  legendários que puderam ter,  em  sua origem,  um fundo de verdade, mas que a superstição ampliou ao absurdo.  É  sobre estes fatos que o Espiritismo vem   lançar  a   luz,  dando  os  meios  de  fazer   a parte do erro e da verdade.

DEUS FAZ MILAGRES?

15. – Quanto aos milagres propriamente ditos, nada sendo impossível a Deus, sem dúvida ele os pode fazer; e os faz? Em outros termos: derroga as leis que estabeleceu? Não cabe ao homem prejulgar os atos da Divindade e subordiná-los à fraqueza do seu entendimento; entretanto, temos como critério de nosso julgamento, com respeito às  coisas  divinas,   os atributos do próprio Deus. Ao soberano poder aliar-se a soberana sabedoria, de onde é preciso concluir que ele nada faz de inútil.

Por  que,  pois,  faria milagres? Para atestar o seu poder, diz-se; mas o poder de Deus não se manifesta, de maneira bem mais  impressionante, pelo  conjunto grandioso das obras da criação, pela sabedoria previdente que preside às suas partes mais ínfimas como as maiores, e pela harmonia  das  leis  que  regem o Universo, do que por algumas pequenas e pueris derrogações que todos os prestigitadores sabem imitar? Que se diria de um sábio mecânico que, para provar a sua habilidade, desarranjasse o relógio que construísse, obra-prima da ciência, a fim de mostrar  que  desfaz  o   que  fez?  Seu  saber, ao con-