A GÊNESE - CAPÍTULO DÉCIMO-QUINTO 1947

Admitindo-se que as coisas tenham se passado como estão narradas, é notável que seja o único fenômeno desse gênero que ele produziu; era de uma natureza muito elevada para se prender a efeitos puramente materiais, próprios somente para estimular a curiosidade da multidão, que o assimilara a um mágico; ele sabia que as coisas úteis lhe conquistariam mais simpatia e lhe trariam mais adeptos do que aquelas que poderiam passar por prestidigitação, não tocando o coração (nº 27).

Se bem que, a rigor, o fato possa se explicar, até um certo ponto, por uma ação fluídica que, assim como o magnetismo dele oferece exemplos, mudaria as propriedades da água dando-lhe o gosto de vinho, esta hipótese é pouco provável, tendo em vista que, em semelhante caso, não tendo senão o gosto do vinho, teria conservado a sua cor, o que não deixaria de ser notável. É mais racional ver aí uma dessas parábolas, tão freqüentes nos ensinamentos de Jesus, como a do filho pródigo, do festim de núpcias, do mau rico, da figueira seca, e tantas outras que, entretanto, têm o caráter de fatos realizados. Teria feito, durante o repasto, uma alusão ao vinho e à água, de onde se tirou uma instrução. O que justifica esta opinião são as palavras que lhe dirige, a esse respeito, o dono da hospedaria: "Todo homem serve primeiro o bom vinho, e depois que se bebeu muito, servem o vinho inferior; mas por vós, reservastes o bom vinho até esta hora."

Entre duas hipóteses, é necessário escolher a mais racional, e os Espíritas não são pessoas bastante crédulas para não ver, por toda a parte, senão fatos de manifestações, nem bastante absolutas para pretenderem tudo explicar pelos fluidos.

MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES

48. – A multiplicação dos pães é um dos milagres que mais tem intrigado os comentaristas, ao mesmo tempo que entreteve a verve dos incrédulos. Sem se darem ao trabalho de sondarem seu sentido alegórico, estes últimos nisso não viram senão um conto pueril; mas a maioria das pessoas sérias viu, nesse relato, embora sob uma forma diferente da forma comum, uma parábola comparando o alimento espiritual da alma ao alimento do corpo.