O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO II - CAP. VII - RETORNO À VIDA CORPORAL 206

dinadas ao desenvolvimento e ao grau de perfeição desses mesmos órgãos, como a boa qualidade de um trabalho, à boa qualidade da ferramenta.

370 – Pode-se deduzir, da influência dos órgãos, uma relação entre o desenvolvimento dos órgãos cerebrais e o desenvolvimento das faculdades morais e intelectuais?

– Não confundais o efeito com a causa. O Espírito tem sempre as faculdades que lhe são próprias; ora, não são os órgãos que dão as faculdades, mas as faculdades que conduzem ao desenvolvimento dos órgãos.

– Assim sendo, a diversidade das aptidões do homem provém unicamente do estado do Espírito?

– Unicamente não é toda a exatidão do fato; as qualidades do Espírito, que pode ser mais ou menos avançado, são o princípio, mas é preciso ter em conta a influência da matéria que entrava, mais ou menos, o exercício dessas faculdades.

O Espírito, se encarnando, traz certas predisposições, admitindo-se, para cada uma, um órgão correspondente no cérebro, o desenvolvimento desses órgãos será um efeito e não uma causa. Se as faculdades se originassem nesses órgãos, o homem seria máquina sem livre arbítrio e sem responsabilidade dos seu atos. Seria preciso admitir que os maiores gênios, sábios, poetas, artistas, não são gênios senão porque o acaso lhes deu órgãos especiais, do que se seguiria que, sem esses órgãos, não poderiam ser gênios e que o último imbecil poderia ser um Newton, um Virgílio ou um Rafael, se estivesse provido de certos órgãos; suposição mais absurda ainda quando se a aplica às qualidades morais. Assim, segundo esse sistema, São Vicente de Paulo, dotado pela Natureza de tal ou tal órgão poderia ter sido um celerado, e não faltaria, ao maior celerado, senão um órgão para ser São Vicente de Paulo. Admiti, ao contrário, que os órgãos especiais, se é que existam, são conseqüentes e se desenvolvem pelo exercício da faculdade, como os músculos pelo movimento, e vós não tereis nada irracional. Façamos  uma  comparação trivial por ser verdadeira: por certos sinais fisionômicos, reconheceis o homem dado à bebida; são esses sinais que o tornam um ébrio, ou a ebriedade que faz aparecer esses sinais? Pode-se dizer que os órgãos recebem o cunho das faculdades.

IDIOTISMO E LOUCURA.

371 – Tem fundamento a opinião segundo a qual os cretinos e os idiotas têm uma alma de natureza inferior?

– Não, eles têm uma alma humana, muitas vezes mais inteligente do que pensais, e que   sofre  a  insuficiência  dos