OBRAS PÓSTUMAS - PRIMEIRA PARTE 2117

CAUSA E NATUREZA DA

CLARIVIDÊNCIA SONAMBÚLICA

EXPLICAÇÃO DO FENÔMENO DA LUCIDEZ

As percepções que ocorrem no estado sonambúlico, sendo de uma outra natureza do que aquelas do estado de vigília, não podem ser transmitidas pelos mesmos órgãos. É constante que, neste caso, a visão não se efetue pelos olhos que, aliás, estão geralmente fechados, e que se pode mesmo pôr ao abrigo dos raios luminosos de maneira a afastar toda suspeita. A visão à distância, e através de corpos opacos, exclui, além disso, a possibilidade do uso dos órgãos ordinários da visão. É preciso, pois, de toda necessidade, admitir no estado de sonambulismo, o desenvolvimento de um sentido novo, sede de faculdades e de percepções novas que nos são desconhecidas, e das quais não podemos nos dar conta senão por analogia e pelo raciocínio. Para isso, se concebe, nada de impossível; mas qual é a sede desse sentido? É o que não é fácil de determinar com exatidão. Os próprios sonâmbulos não dão, a esse respeito, nenhuma indicação precisa. Ocorre que, para melhor verem, aplicam os objetos sobre o epigastro, outro sobre a fronte, outro sobre o occipital. Esse sentido não parece, pois, circunscrito num lugar determinado; é certo, contudo, que a sua maior atividade reside nos centros nervosos. O que é positivo é que o sonâmbulo vê. Por onde e como? É o que ele mesmo não pode definir.