OBRAS PÓSTUMAS - PRIMEIRA PARTE 2144

mesma causa, que defenderam com incontestável talento, e deveriam, forçosamente, chegar às mesmas conclusões. Longe de querer denegri-los, em que quer que seja, quisemos simplesmente refutar o valor das conseqüências que se pretende tirar de seu acordo.

No exame que vamos fazer, da questão da divindade do Cristo, pondo de lado as sutilezas da escolástica que não serviram senão para embrulhar em lugar de elucidar, nos apoiaremos exclusivamente sobre os fatos que ressaltam do texto do Evangelho, e que, examinados friamente, conscienciosamente, sem idéia preconcebida, fornecem superabundantemente todos os meios de convicção que se possam desejar. Ora, entre esses fatos, não há de mais preponderante, nem de mais concludentes, senão as palavras mesmas do Cristo, palavras que não se saberia recusar sem infirmar a veracidade dos apóstolos. Pode-se interpretar de diferentes maneiras uma palavra, uma alegoria; mas afirmações precisas, sem ambigüidade, cem vezes repetidas, não poderiam ter um duplo sentido. Nenhum outro, senão Jesus, pode pretender saber melhor do que ele o que quis dizer, como ninguém pode pretender estar melhor informado do que ele sobre a sua própria natureza: quando ele comenta as suas palavras, e as explica, para evitar todo equívoco, deve-se confiar nele, a menos lhe neguemos a superioridade que se lhe atribui, e substituamos a sua própria inteligência. Se foi obscuro em certos pontos, quando se serviu de linguagem figurada, sobre o que toca à sua pessoa não há equívoco possível. Antes do exame das palavras, vejamos os atos.

II. - A DIVINDADE DO CRISTO ESTÁ PROVADA

PELOS MILAGRES?

Segundo a Igreja, a divindade do Cristo está estabelecida, principalmente pelos milagres, como testemunho de um poder sobrenatural. Esta consideração pôde ter um certo peso numa época em que o maravilhoso era aceito sem exame; mas hoje, que a ciência levou