O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO II - CAP. VII - RETORNO À VIDA CORPORAL 215

de sua sorte, não tendo a lembrança de uma existência anterior para comparação?

– A isso é preciso dar duas respostas diferentes. Há mundos, entre aqueles de que falas, cujos habitantes têm uma lembrança muito clara e muito precisa de suas existências passadas. Esses, tu o compreendes, podem e sabem apreciar a felicidade que Deus lhes permite saborear. Mas existem outros onde os habitantes, como tu o disseste, colocados em melhores condições do que vós, não têm menos aborrecimentos, infelicidade mesmo; esses não apreciam sua felicidade pelo fato mesmo de que não têm lembrança de um estado ainda mais infeliz. Se eles não a apreciam como homens, apreciam-na como Espíritos.

Não há, no esquecimento dessas existências passadas, sobretudo naquelas que foram penosas, alguma coisa de providencial e na qual se revela a sabedoria divina? É nos mundos superiores, quando a lembrança das existências infelizes não é mais do que um sonho mau, que elas afloram à memória. Nos mundos inferiores, as infelicidades atuais não seriam agravadas pela lembrança de tudo aquilo que se suportou?

Concluamos daí, então, que tudo que Deus fez  está bem feito e que não nos cabe criticar-lhe as obras e dizer como deveria regular o Universo.

A lembrança de nossas individualidades anteriores teriam inconvenientes muito graves; poderia, em certos casos, nos humilhar extraordinariamente e, em outros, exaltar o nosso orgulho e, por isso mesmo, entravar o nosso livre arbítrio. Deus nos deu, para nos melhorarmos, o que nos é necessário e nos basta: a voz da consciência e nossas tendências instintivas, privando-nos do que nos poderia prejudicar. Acrescentemos, ainda, que se tivéssemos a lembrança de nossos atos pessoais anteriores, teríamos igualmente dos atos dos outros e esse conhecimento poderia ter os mais deploráveis efeitos sobre as relações sociais. Não havendo sempre motivos para nos glorificarmos do nosso passado, ele é quase sempre feliz quando um véu lhe seja lançado. Isso concorda perfeitamente com a doutrina dos Espíritos sobre os mundos superiores ao nosso. Nesses mundos, onde não reina senão o bem, a lembrança do passado, não tem nada de penosa;  eis porque sabem aí de sua existência precedente, como nós sabemos o que fizemos na véspera. Quanto à estada que fizeram nos mundos inferiores, como dissemos, não é mais que um sonho mau.

395 – Podemos ter algumas revelações sobre nossas existências anteriores?

– Nem sempre. Muitos sabem, entretanto, o que foram e o que fizeram; se lhes fosse permitido dizê-lo abertamente, fariam singulares revelações sobre o passado.