OBRAS PÓSTUMAS - PRIMEIRA PARTE 2153

"Mas, por mim, tenho um testemunho maior do que o de João, porque as obras que meu Pai me deu o poder de fazer, as obras, digo eu, que faço, dão testemunho de mim, que foi meu Pai que me enviou." (São João, cap. V, v. 36.)

"Mas agora procurais me fazer morrer, eu que vos disse a verdade que aprendi de Deus, foi o que Abraão nunca fez." (São João, cap. VIII, v. 40.)

Desde então, que ele não disse nada de si mesmo; que a doutrina que ensinou não é a sua, mas que a tem de Deus, que lhe ordenou vir fazê-la conhecer; que não faz senão o que Deus lhe deu o poder de fazer; que a verdade que ensina, ele aprendeu de Deus, à vontade de quem está submetido; é que não é o próprio Deus, mas seu enviado, seu messias e seu subordinado.

É impossível recusar, de maneira mais positiva, toda assimilação à pessoa de Deus, e de determinar seu principal papel em termos mais precisos. Não estão aí pensamentos ocultos sob o véu da alegoria, e que não se descobrem senão à força de interpretação: é o sentido próprio, expresso sem ambigüidade.

Se se objetasse que Deus, não querendo se fazer conhecer na pessoa de Jesus, enganasse sobre a sua individualidade, poder-se-ia perguntar sobre o quê está fundada essa opinião, e quem tem autoridade para sondar o fundo de seu pensamento, e dar, às suas palavras, um sentido contrário àquele que elas exprimem? Uma vez que, quando vivo, ninguém o considerava como Deus, mas era olhado, ao contrário, como um messias, se não quisesse ser conhecido pelo que era, bastar-lhe-ia nada dizer; de sua afirmação espontânea é preciso concluir que ele não era Deus, ou que, se o era, voluntariamente e sem utilidade, disse uma coisa falsa.

É de notar-se que São João, aquele dos Evangelistas sobre a autoridade de quem mais se apoiou para estabelecer o dogma da divindade do Cristo, seja precisamente o que encerra os argumentos contrários mais