O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO II - CAP. VII - RETORNO À VIDA CORPORAL 217

errante, o próprio Espírito escolhe as provas às quais quer se submeter para acelerar o seu progresso, quer dizer, o gênero de existência que ele crê mais apropriado para lhe fornecer os meios, e essas provas estão sempre em relação com as faltas que deve expiar. Se triunfa, se eleva; se sucumbe, está por recomeçar.

O Espírito goza sempre do seu livre arbítrio e é em virtude dessa liberdade que, no estado de espírito, escolhe as provas da vida corporal e que, no estado de encarnado, delibera se as cumpre ou não, escolhendo entre o bem e o mal. Denegar ao homem o seu livre arbítrio, será reduzi-lo à condição de máquina.

Entrando na vida corporal, o Espírito perde momentaneamente a lembrança de suas existências anteriores, como se um véu as ocultasse. Todavia, ele tem algumas vezes uma vaga consciência e elas podem mesmo lhe serem reveladas em certas circunstâncias; mas é apenas pela vontade de Espíritos superiores que o fazem espotaneamente, com um fim útil e jamais para satisfazer uma vã curiosidade.

As existências futuras não podem ser reveladas em nenhum caso, pela razão de que elas dependem da maneira que se cumpra a existência presente e da escolha ulterior do Espírito.

O esquecimento das faltas cometidas não é um obstáculo ao progresso do Espírito, porque se não tem uma lembrança precisa, o conhecimento que teve no estado errante e o desejo que tomou de as reparar, guiam-no pela intuição e lhe dão o pensamento de resistir ao mal. Esse pensamento é a voz da consciência, que é secundada pelos Espíritos que o assistem, se escuta as boas inspirações que sugerem.

Se o homem não conhece os atos que cometeu  nas  suas existências anteriores, ele pode sempre saber de que gênero de faltas se tornou culpado e qual era seu caráter dominante. Basta estudar-se e pode julgar do que foi, não pelo que é, mas por suas tendências.

As vicissitudes da vida corporal são, ao mesmo tempo, uma expiação pelas faltas do passado e provas para o futuro. Elas nos depuram e nos elevam segundo as suportemos com resignação e sem murmurar.

A natureza das vicissitudes e das provas que suportamos pode, também, nos esclarecer sobre o que fomos e o que fizemos, como neste mundo julgamos os fatos de um culpado pelos castigos que lhe inflinge a lei.

Assim, alguém será castigado no seu orgulho pela humilhação de uma existência subalterna; o mau rico e o avaro, pela miséria; o que foi duro para os outros, pela dureza que suportará; o tirano, pela escravidão; o mau filho, pela ingratidão dos seus filhos; o preguiçoso, por um trabalho forçado, etc.