OBRAS PÓSTUMAS - PRIMEIRA PARTE 2171

"Aquela era a verdadeira luz que clareia todo homem vindo neste mundo. – Ele estava no mundo e o mundo nada fez por ele, e o mundo não o conheceu. – Ele veio aos seus e os seus não o receberam. – Mas deu a todos aqueles que o receberam o poder de serem feitos filhos de Deus, àqueles que creram em seu nome, que não são nascidos do sangue nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus mesmo.

"E o Verbo se fez carne e habitou entre nós; e vimos a sua glória, sua glória tal quanto o Filho único deveria recebê-la do Pai; ele, digo eu, habitou entre nós, cheio de graça e de verdade." (João, cap. 1º, v. de 1 a 14.)

Esta passagem dos Evangelhos é a única que, à primeira vista, parece encerrar implicitamente uma idéia de identificação entre Deus e a pessoa de Jesus; é também aquela sobre a qual se estabeleceu, mais tarde, a controvérsia a este respeito. Essa questão da divindade de Jesus não chegou senão gradualmente; nasceu das discussões levantadas a propósito das interpretações dadas, por alguns, às palavras Verbo e Filho. Não foi senão no quarto século que ela foi adotada, em princípio, por uma parte da Igreja. Esse dogma é, pois, o resultado de uma decisão dos homens e não de uma revelação divina.

Há de início a notar que, as palavras que citamos mais acima, são de João, e não de Jesus, e que, admitindo que não hajam sido alteradas, não exprimem, em realidade, senão uma opinião pessoal, uma indução onde se encontra o misticismo habitual de sua linguagem; elas não poderiam, pois, prevalecer contra as afirmações reiteradas do próprio Jesus.

Mas, aceitando-as tais quais são, elas não resolvem de nenhum modo a questão no sentido da divindade, porque se aplicariam igualmente a Jesus, criatura de Deus.

Com efeito, o Verbo é Deus, porque é a palavra de