OBRAS PÓSTUMAS - PRIMEIRA PARTE 2176

de uma natureza excepcional.

Jesus se dá a si mesmo essa qualificação com uma persistência notável, porque não é senão em muito raras circunstâncias que se diz Filho de Deus. Em sua boca não pode ter outro significado que o de lembrar que, também ele, pertence à Humanidade: por aí se assimila aos profetas que o precederam e aos quais se comparou fazendo alusão à sua morte, quando disse: JERUSALÉM QUE MATA OS PROFETAS? A insistência que coloca em se designar como filho do homem, parece um protesto antecipado contra a qualidade que prevê que dar-se-lhe-á mais tarde, a fim de que seja bem constatado que ela não saiu de sua boca.

É notável que, durante essa interminável polêmica que apaixonou os homens durante uma longa série de séculos, e dura ainda, que acendeu as fogueiras e fez verter ondas de sangue, disputou-se sobre uma abstração, a natureza de Jesus, da qual se fez a pedra angular do edifício, embora disso não haja falado; e que se haja esquecido uma coisa, a de que o Cristo disse ser toda a lei e os profetas: o amor de Deus e do próximo, e a caridade, da qual fez a condição expressa de salvação. Agravou-se sobre a questão da afinidade de Jesus com Deus, e se passou completamente sob silêncio as virtudes que ele recomendou e das quais deu o exemplo.

O próprio Deus, se apagou diante da exaltação da personalidade do Cristo. No símbolo de Nicéia, está dito simplesmente: Cremos em um Deus único, etc.; mas como é esse Deus? De nenhum modo se fez menção aos seus atributos essenciais: a soberana vontade e a soberana justiça. Essas palavras seriam a condenação dos dogmas que consagram sua parcialidade para com certas criaturas, sua inexorabilidade, seu ciúme, sua cólera, seu espírito vingativo, dos quais se autoriza para justificar as crueldades cometidas em seu nome.

Se o símbolo de Nicéia, que se tornou o fundamento da fé católica, estava segundo o Espírito do Cristo, por